Partidos árabes ganham força e entram no centro da disputa em Israel
Com até 19 cadeiras, as legendas podem ajudar Gadi Eisenkot a formar maioria contra Netanyahu, mas o líder da oposição não confirmou uma aliança.
Resumo em 30 segundos
A participação recorde de eleitores árabes pode levar seus partidos a somar até 19 cadeiras no Parlamento israelense. Como os blocos de Binyamin Netanyahu e Gadi Eisenkot não devem alcançar sozinhos a maioria de 61 assentos, as legendas árabes podem ser decisivas nas negociações, embora a formação de uma aliança enfrente resistência.
A participação recorde de eleitores árabes nas eleições de terça-feira em Israel deve dar aos partidos que representam a comunidade até 19 cadeiras no Parlamento, segundo resultados iniciais. O desempenho coloca essas legendas no centro das negociações, porque nenhum dos blocos liderados pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e por seu principal adversário, Gadi Eisenkot, parece alcançar sozinho as 61 cadeiras necessárias para formar um governo.
A eleição deixa os partidos árabes diante de uma influência política maior do que a que tiveram em gerações. Eles ocupavam dez assentos no Parlamento anterior. A comunidade árabe corresponde a cerca de 20% dos cidadãos israelenses, mas sua participação eleitoral costuma ser inferior à dos eleitores judeus.
Os resultados iniciais indicam que a Lista Conjunta será maior do que o Raam, embora as duas legendas somadas possam chegar a 19 cadeiras. O Raam tem raízes na política islâmica e adotou uma estratégia voltada a obter aceitação entre judeus israelenses, com menor ênfase na criação de um Estado palestino. A Lista Conjunta reúne três partidos menores, entre eles uma facção judaico-árabe de esquerda e outra nacionalista palestina, e é vista como mais crítica ao sionismo.
Para Eisenkot, o apoio árabe pode ser decisivo para afastar Netanyahu do poder, mas uma aliança enfrenta resistência dentro da oposição e entre parte dos eleitores judeus. Eisenkot não esclareceu se aceitaria formar uma coalizão com partidos árabes e afirmou que eles não atendiam às condições que estabeleceu para possíveis aliados. Mesmo assim, sem esse apoio, seu bloco dificilmente reuniria maioria.
Uma alternativa seria os partidos árabes apoiarem a oposição sem integrar formalmente o governo, por exemplo, ajudando a impedir votos de desconfiança. Esse arranjo teria precedente: na década de 1990, o então primeiro-ministro Yitzhak Rabin contou com parlamentares árabes para sustentar um governo minoritário. A influência das legendas também pode se estender a decisões do Parlamento, mesmo que elas fiquem fora da coalizão.
O líder da Lista Conjunta, Yousef Jabareen, disse que sua aliança está disposta a cooperar para derrubar o governo. “A bola agora está com Eisenkot. Quem quiser destituir Netanyahu e mudar suas políticas, nós estamos prontos para cooperar para derrubar seu governo”, afirmou. Ele também acusou Netanyahu de incitar contra os partidos árabes porque, segundo ele, não há maioria para substituir o premiê sem essas legendas.
Na véspera da votação, Netanyahu afirmou, sem apresentar provas, que eleitores árabes tentavam “roubar a eleição” e usou a participação da comunidade para mobilizar sua base de direita. As autoridades eleitorais disseram que não havia relatos de irregularidades generalizadas. A Lista Conjunta e o Raam condenaram os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, mas também criticaram a condução israelense da guerra em Gaza.
A resistência a uma coalizão com partidos árabes tem raízes em divergências políticas e em questionamentos sobre segurança. Muitos judeus israelenses defendem que o Estado, definido como judeu, seja governado apenas por judeus; outros duvidam que lideranças árabes possam participar de decisões de segurança nacional. Essas objeções se intensificaram após o ataque de 2023 e a guinada à direita na política israelense.
Os cidadãos árabes de Israel têm direito a voto e alguns ocuparam cargos de alto nível, inclusive na Suprema Corte. Parte deles também se identifica como palestina e mantém vínculos familiares e históricos com a Cisjordânia e Gaza. Muitos afirmam enfrentar discriminação em áreas como moradia e serviços públicos, além de viver em cidades e vilas majoritariamente separadas das comunidades judaicas.
A participação de um partido árabe em uma coalizão governista ocorreu pela primeira vez em 2021, quando o Raam, liderado por Mansour Abbas, se uniu a adversários de Netanyahu para formar um governo que durou pouco. Desde então, Abbas tem buscado ampliar a aceitação do partido. Ele reconheceu o caráter judaico de Israel e indicou o parlamentar judeu Yoav Segalovitz, ex-oficial superior da polícia e centrista, para o segundo lugar na lista eleitoral do Raam.
O impasse atual reflete uma mudança na presença política árabe, mas não garante a formação de uma aliança com Eisenkot. Para governar, um bloco precisa obter apoio de pelo menos 61 dos 120 integrantes do Parlamento. A decisão sobre a cooperação dependerá de negociações e da disposição dos partidos judeus da oposição de assumir o custo político de depender dos votos árabes.
Para entender
- Knesset
- É o Parlamento unicameral de Israel, responsável por aprovar leis e participar da formação do governo. Seus 120 integrantes são eleitos por representação proporcional; para governar, uma coalizão precisa obter o apoio de pelo menos 61 parlamentares.