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Quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Empresários enfrentam ameaças após listas de boicote político

Comerciantes de diferentes regiões relatam mensagens hostis e temor de perder clientes após serem associados ao presidente eleito em listas que circulam nas redes.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Dono de um pequeno comércio olha para o celular dentro do estabelecimento. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Dono de um pequeno comércio olha para o celular dentro do estabelecimento.
Resumo em 30 segundos

Empresários de diferentes regiões do país relatam ameaças, mensagens hostis e preocupação com possíveis prejuízos após serem incluídos em listas de boicote político. Alguns dizem que foram citados sem declarar preferência eleitoral; outros já se posicionavam publicamente. Um precedente judicial envolve comerciantes perseguidos após uma lista semelhante em São Paulo.

Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição de domingo (25), empresários passaram a ser citados em listas que circulam nas redes sociais e em grupos de apoiadores do candidato derrotado, o senador Flávio Bolsonaro (PL). As publicações incentivam consumidores a boicotar negócios associados ao presidente eleito. Comerciantes relatam mensagens hostis, ameaças e preocupação com possíveis perdas de clientes em cidades de diferentes regiões do país.

As listas foram identificadas em capitais como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de municípios do interior paulista e de Minas Gerais. Alguns empresários afirmam que foram incluídos sem nunca terem declarado publicamente sua preferência eleitoral; outros dizem que já esperavam ser citados por terem manifestado apoio a Lula. Em certos casos, a circulação das mensagens também levou clientes a enviar manifestações de solidariedade.

A livraria Martins Fontes, em São Paulo, declarou apoio a Lula em 2022 e neste ano e voltou a aparecer em uma lista. Seu proprietário, Alexandre Martins Fontes, afirma que não pretende deixar de se posicionar publicamente. Para ele, apoiar um candidato é uma forma de exercer a liberdade de expressão, e a livraria deve apresentar obras e ideias de diferentes correntes políticas.

“Eu respeito totalmente a decisão dos nossos clientes de votarem em quem eles quiserem, como eu gostaria que eles respeitassem a nossa decisão de publicamente dizer quem é o nosso candidato”, disse. Fontes afirma que clientes já ameaçaram deixar de comprar na livraria por causa de seu posicionamento, mas diz não se arrepender e relata que o negócio cresceu nos últimos quatro anos.

Em Ourinhos, no interior de São Paulo, a empresária do ramo de beleza Paula Ramos soube por uma cliente que seu nome constava de uma relação de estabelecimentos a serem boicotados. Ela diz que nunca tornou pública sua posição política para atender pessoas com diferentes opiniões e afirma que a inclusão na lista foi baseada em suposições.

“As pessoas estão deduzindo que sou de esquerda, que votei no PT [Partido dos Trabalhadores], simplesmente por eu não ter me manifestado. E, mesmo que eu tivesse me manifestado, não poderia ser assim”, afirmou. Ramos relata ter recebido mensagens de apoio e contatos de novas clientes interessadas em marcar procedimentos. Ela também conversou com um advogado sobre possíveis medidas legais.

Em Serrana, também no interior paulista, Francisco Meghelli, dono de um grupo empresarial que inclui uma imobiliária da família, afirma que esperava aparecer em uma lista após expressar apoio político publicamente. Depois de publicar um vídeo sobre o caso, recebeu relatos de pessoas que deixariam de comprar imóveis com a empresa, mas diz que ainda não identificou prejuízo financeiro concreto.

Meghelli relata ainda que familiares de uma pessoa que compartilhou a lista foram até ele e pediram que retirasse a publicação, numa abordagem que considerou ameaçadora. Ele pretende registrar boletim de ocorrência e buscar indenização. Segundo o empresário, uma cabeleireira teria perdido três clientes após a circulação da relação, e funcionários de um ponto de venda de açaí foram xingados. Ele afirma que um dos grupos em que as mensagens eram compartilhadas foi excluído após a divulgação de seu vídeo.

Em Curitiba, os responsáveis por um estabelecimento vegano, que não quiseram ser identificados, dizem que já apareceram em listas semelhantes. O negócio tem decoração com referências políticas e, segundo eles, o boicote não costuma afetar tanto a atividade. Em outras ocasiões, porém, o local foi alvo de avaliações negativas na internet. Os responsáveis não receberam ameaças diretamente, mas foram avisados por pessoas com acesso aos grupos.

Capturas de tela de um grupo da capital paranaense mostram mensagens hostis a consumidores de esquerda. Um participante escreveu que cobraria 30% a mais de clientes petistas e que eles não seriam bem-vindos. Os responsáveis pelo estabelecimento não pretendem recorrer à Justiça por enquanto, mas dizem que podem reconsiderar a decisão se houver um ataque direcionado ao negócio.

Uma proprietária de farmácia no interior de Mato Grosso, que também pediu anonimato, afirma que foi incluída pela segunda vez em listas de boicote. Ela diz que evitava falar publicamente de política para respeitar clientes e funcionários, mas passou a receber comentários negativos e mensagens que orientavam consumidores a não frequentar a farmácia. A comerciante teme consequências para o negócio e para os trabalhadores.

Segundo ela, também circularam mensagens ofensivas contra nordestinos. Pessoas atingidas pelas publicações estão guardando capturas de tela, vídeos e números de telefone para documentar o conteúdo. O grupo pretende encaminhar uma denúncia ao Ministério Público e avalia medidas individuais contra participantes por mensagens consideradas homofóbicas e xenofóbicas. Um dos grupos usados para organizar as listas foi excluído depois que seus integrantes souberam que providências estavam sendo tomadas, mas parte das conversas já havia sido salva.

Há precedente judicial envolvendo uma lista semelhante. Em julho de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou em segunda instância dois homens por perseguição, após a elaboração e divulgação de uma relação de comerciantes apontados como apoiadores da esquerda em Cafelândia, no interior paulista. Eles receberam penas em regime aberto, com suspensão condicional, e foram condenados a indenizar individualmente em dois salários mínimos cada uma das sete pessoas que formalizaram reclamações. Segundo a denúncia do Ministério Público, os comerciantes sofreram constrangimentos, perturbações no trabalho e prejuízos financeiros; uma lanchonete citada chegou a ser associada a um ataque com uma pequena bomba.

Fontes: Folha de S.Paulo

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