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Sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Nayib Bukele inspira presídios de segurança máxima na América Latina

Equador e Costa Rica adotaram medidas semelhantes, mas a alta dos homicídios no Equador mostra que o modelo não garante os mesmos resultados.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Exterior de uma penitenciária de segurança máxima, com muros altos, cercas e torres de vigilância. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Exterior de uma penitenciária de segurança máxima, com muros altos, cercas e torres de vigilância.
Resumo em 30 segundos

A estratégia de segurança de Nayib Bukele, marcada por detenções em massa e presídios de segurança máxima, inspira governos latino-americanos. Equador e Costa Rica adotaram medidas semelhantes, mas os resultados variam: os homicídios equatorianos bateram recorde em 2025. Especialistas apontam que o modelo depende de condições específicas e pode restringir direitos e instituições democráticas.

A chamada “bukelização” da América Latina — a adoção de políticas de segurança inspiradas no presidente de El Salvador, Nayib Bukele — ganha força em países que enfrentam altos índices de violência. A estratégia combina detenções em massa, construção de presídios de segurança máxima e ampla divulgação de operações policiais, mas também tem sido associada à restrição de direitos e ao enfraquecimento de instituições democráticas.

Bukele chegou ao poder em 2019 e atribui à sua política de segurança a queda dos homicídios em El Salvador. Estatísticas oficiais citadas no debate sobre o modelo apontam redução de 95% desde que ele assumiu. Os assassinatos caíram para menos de dois por 100 mil habitantes, ante cerca de 50 quando foi eleito e 100 uma década antes. Pesquisas de opinião indicam que sua aprovação gira em torno de 90%.

O governo salvadorenho adotou um estado de emergência por tempo indeterminado, que suspendeu direitos constitucionais e permitiu prisões sem mandado. A política levou à detenção de dezenas de milhares de pessoas, muitas suspeitas de ligação com gangues. Organizações de direitos humanos criticam procedimentos judiciais que mantêm presos em julgamentos coletivos, com testemunhas anônimas e centenas de réus reunidos em um mesmo processo.

A dimensão das prisões é uma das marcas do modelo. Segundo Manuel Meléndez-Sánchez, pesquisador salvadorenho da Universidade de Notre Dame, Bukele encarcerou quase um em cada 80 habitantes nos dois primeiros anos da campanha. El Salvador tem hoje a maior taxa de encarceramento do mundo. O presidente também alterou a Constituição para permitir prisão perpétua para crianças a partir de 12 anos.

O sucesso dos indicadores de segurança tornou Bukele uma referência para políticos da região. No Brasil, Flávio Bolsonaro viajou a El Salvador em busca de ideias quando cogitava disputar a Presidência. Depois, lançou uma plataforma que previa cinco novos presídios de segurança máxima, pena de oito anos para ladrões de celulares e castração química para estupradores e pedófilos. Em um comício, afirmou: “Estou começando a achar que El Salvador não é suficiente”.

O Equador é um dos países que mais adotaram medidas semelhantes. Em janeiro de 2024, o presidente Daniel Noboa declarou estado de emergência, suspendeu direitos constitucionais e mobilizou 22 mil militares contra gangues. Seu governo também planeja novos presídios e divulgou imagens de detentos de cabeça raspada, em cenas que lembram a comunicação visual salvadorenha.

Os resultados equatorianos, porém, diferem dos de El Salvador. Em 2025, os homicídios no Equador subiram 30%, para o recorde de 9.200 casos. A taxa caiu 10% desde então, mas segue um pouco acima do nível registrado quando Noboa assumiu. O governo fez quase 58 mil prisões neste ano, mas a população carcerária não aumentou no mesmo ritmo, pois juízes libertaram muitos detidos enquanto aguardam julgamento.

Na Costa Rica, a presidente Laura Fernández apresentou um novo presídio de segurança máxima com capacidade para 5.000 pessoas. As celas devem abrigar 50 presos cada. Durante a inauguração, ela chamou Bukele de inspiração e conselheiro e agradeceu publicamente ao líder salvadorenho. Oito países têm projetos em andamento para construir presídios de segurança máxima, e autoridades de diferentes governos visitaram a penitenciária salvadorenha, projetada para 40 mil detentos.

Especialistas apontam limites para a reprodução do modelo. El Salvador tem território equivalente ao de Massachusetts, o que facilita o policiamento em comparação com países extensos como o Brasil. Meléndez-Sánchez também afirmou que as gangues foram pegas de surpresa pela mudança de estratégia do governo. Evidências encontradas por promotores americanos indicaram que autoridades salvadorenhas haviam firmado anteriormente um pacto com as gangues para reduzir a violência.

A concentração de poder também é central para a política de Bukele. Durante o governo, juízes foram afastados, limites à reeleição foram eliminados e críticos e jornalistas deixaram o país. A ex-presidente da Costa Rica Laura Chinchilla afirmou que, no modelo salvadorenho, “é Bukele, e não a lei, quem decide quem será preso e quem continuará na prisão”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogia Bukele e o apresenta como exemplo para a região. Ao mesmo tempo, pressiona governos latino-americanos a adotar medidas mais duras contra cartéis e gangues. A popularidade do modelo entre eleitores preocupados com a criminalidade tem influenciado o debate político regional, embora os casos do Equador e de El Salvador mostrem que a adoção de medidas semelhantes não garante os mesmos resultados.

Fontes: Folha de S.Paulo

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