Meta registra falhas que limitaram anúncios de Lula e recomendaram Flávio
Mensagens internas apontam que a campanha de Lula ficou quase 24 horas sem impulsionar posts no Instagram; a empresa atribuiu os episódios a falhas técnicas.
Resumo em 30 segundos
Registros internos da Meta mostram que, em 9 de outubro, a campanha de Lula ficou quase 24 horas impedida de impulsionar publicações já exibidas no Instagram. Funcionários também relataram que o perfil de Flávio apareceu em recomendações de busca. A empresa afirmou que os episódios tiveram causas técnicas distintas e negou favorecer candidaturas.
Mensagens internas da Meta registram que funcionários identificaram restrições que impediram a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de impulsionar publicações no Instagram por quase 24 horas, em 9 de outubro, e falhas na exibição de perfis de candidatos em buscas. Os registros também apontam que o perfil de Flávio Bolsonaro (PL) apareceu em recomendações que deveriam ser vedadas pelas regras eleitorais. A empresa atribuiu os episódios a causas técnicas distintas e negou favorecer candidaturas.
No caso de Lula, a conta oficial ficou sem poder pagar para ampliar o alcance de publicações já exibidas no feed do Instagram. A campanha ainda conseguia promover novos conteúdos por meio de anúncios que não aparecem no perfil público, chamados dark posts, e os impulsionamentos iniciados antes da restrição continuaram ativos.
A campanha estimou que cerca de 1,3 milhão de pessoas deixaram de ver anúncios durante o período. Em mensagens internas, funcionários reconheceram que a conta de Lula estava “limitada” em relação à de Flávio e manifestaram preocupação com a possibilidade de uma ação judicial. Os registros não apontam admissão de interferência deliberada na eleição.
A Meta informou inicialmente que havia um problema técnico no gerenciador de anúncios. Funcionários acionaram engenheiros nos Estados Unidos e pediram que o caso fosse tratado como SEV2, classificação interna para ocorrências graves que exigem resposta urgente. Nas conversas, eles reclamaram da demora para a solução e disseram que ainda seria necessário explicar o episódio à equipe de Lula, que cobrava respostas.
A empresa também citou uma interrupção global de dados que teria atingido mais de 3.000 contas em 7 de outubro. Naquele caso, usuários não conseguiam ver a contagem de visualizações de publicações, e a falha durou cinco horas, segundo as mensagens. Os registros distinguem esse episódio da restrição à conta de Lula, que ocorreu dois dias depois e durou quase 24 horas.
O impulsionamento pago é uma forma de ampliar a distribuição de conteúdo nas redes. De acordo com as regras eleitorais citadas no caso, candidatos não podem ter contas recomendadas por algoritmos; por isso, o impulsionamento é uma das formas permitidas para aumentar o alcance de publicações. A Meta tem papel central na publicidade eleitoral digital, enquanto o Google deixou de vender anúncios políticos em 2024 e o Kwai oferece esse serviço de forma restrita.
As mensagens também trataram de resultados apresentados nas buscas do WhatsApp. Ao procurar “Exército do Lula”, usuários recebiam, entre as sugestões, o Canal do Lula, o canal Tropa do Flávio e o Partido dos Trabalhadores. A regra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê que perfis e canais de candidatos só apareçam quando a pessoa digita o nome exato, sem recomendação algorítmica.
O canal Exército do Lula é administrado pelo deputado André Janones. Ele foi retirado do ar por ordem do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e depois voltou a funcionar. Em conversas internas, funcionários também relataram que o perfil de Flávio aparecia nas buscas do Instagram no início de outubro, enquanto o de Lula não surgia nem quando o nome exato era digitado. Eles descreveram a exibição de Flávio como uma falha e disseram que o problema foi corrigido, embora ainda houvesse variações nas sugestões de busca.
Os registros mencionam outros problemas nas contas dos dois candidatos. Em 23 de setembro, Lula e Flávio ficaram cerca de uma hora sem conseguir publicar anúncios após um alerta de “atividade suspeita”, que funcionários atribuíram a erro. Já em 1º de outubro, anúncios da campanha de Flávio foram bloqueados por suspeita de uso de inteligência artificial durante um período em que a tecnologia era proibida pelas regras eleitorais. A campanha negou ter usado IA.
A Meta afirmou que as acusações de interferência ou favorecimento não têm respaldo nos fatos. Disse que os episódios decorreram de falhas técnicas globais, de um erro específico corrigido e da aplicação das regras eleitorais brasileiras, que, segundo a empresa, valem igualmente para todas as candidaturas. A companhia também declarou que os sistemas não são projetados nem operados para beneficiar candidato, partido ou posição política.
A campanha de Flávio, por sua vez, afirmou que não teve problemas que afetassem os perfis ou canais do candidato e que a conta de anúncios funcionava normalmente. Disse ainda que cumpre as regras da plataforma e do TSE e que eventuais efeitos sobre alcance e métricas são compensados com estudos e trabalho técnico da equipe.
Para entender
- Impulsionamento
- É o pagamento feito para ampliar a distribuição de uma publicação nas redes sociais. No Instagram, pode aumentar o alcance de um conteúdo que já aparece no perfil ou promover anúncios que não ficam visíveis na página pública.
- TSE
- O Tribunal Superior Eleitoral é o órgão máximo da Justiça Eleitoral brasileira. Entre suas atribuições estão organizar as eleições e estabelecer regras para a propaganda eleitoral.