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Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Queimadas na Amazônia atingem áreas protegidas e florestas

O Inpe registrou 38.620 focos de queimadas na Amazônia em 2026; desde setembro, quase 19% ocorreram em unidades de conservação ou terras indígenas.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Fumaça cobre a copa de uma área de floresta amazônica. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Fumaça cobre a copa de uma área de floresta amazônica.
Resumo em 30 segundos

A Amazônia contabilizou 38.620 focos de queimadas desde o início do ano, com cerca de um em cada cinco em áreas protegidas. Pará e Amazonas concentram a maior parte dos registros. No Amazonas, a área queimada superou as médias históricas, enquanto autoridades investigam incêndios criminosos e equipes seguem no combate ao fogo.

A Amazônia registrou 38.620 focos de queimadas desde o início do ano, e cerca de um em cada cinco ocorreu em áreas protegidas, como unidades de conservação e terras indígenas. Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) foram apresentados nesta quarta-feira, 14, em meio ao avanço do fogo e da fumaça que afeta cidades como Manaus e Porto Velho.

Desde setembro, foram identificados 20.203 focos no bioma. Desse total, 18,9% ocorreram em unidades de conservação estaduais ou federais ou em terras indígenas. Pará e Amazonas concentram 65% dos focos registrados desde janeiro; no recorte iniciado em setembro, 48% estão no Pará e 26% no Amazonas.

O ministro do Meio Ambiente, João Capobianco, afirmou após sobrevoar áreas atingidas no Amazonas que equipes encontraram fogo em trechos de floresta preservada e de difícil acesso. Segundo ele, os incêndios não se limitam a chamas que começam em pastagens e avançam para a mata. “Nós identificamos muitos focos de incêndio no meio da floresta preservada”, disse.

Entre as áreas protegidas afetadas desde setembro estão a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, com 677 registros, a Terra Indígena (TI) Tumucumaque, com 172, e a Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, com 139. A parcela de focos em áreas protegidas não representa recorde: no mesmo intervalo de 2024, 29% dos 49.035 registros ocorreram nesses territórios.

Um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) sobre 19 municípios amazonenses com maior incidência de fogo, entre eles Autazes, Careiro e Itacoatiara, aponta que 65% das queimadas ocorreram em florestas. O estudo cruzou registros de focos de calor do Inpe com mapas de uso da terra do MapBiomas. A diretora de ciência do Ipam, Ane Alencar, afirmou que boa parte do fogo atinge áreas florestais alagadas ou de terra firme, muitas delas públicas.

A extensão queimada no Amazonas também supera referências históricas. Conforme o sistema Alarmes, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa/UFRJ), setembro terminou com 291.060 hectares atingidos, 38,8% acima da média histórica de 209.651 hectares.

Em outubro, até a data do levantamento, a área queimada no estado chegava a 220,7 mil hectares. O volume já era 249% maior do que a média histórica de todo o mês, de 63,2 mil hectares. Pesquisadores relacionam o aumento do fogo à formação de um El Niño, fenômeno de aquecimento das águas do Pacífico que pode alterar o regime de chuvas e favorecer seca e calor no Norte do Brasil.

Especialistas também apontam que a baixa ocorrência de queimadas nos dois anos anteriores deixou folhas secas e outros materiais combustíveis acumulados no solo. Esse material pode facilitar a propagação das chamas. O pico tradicional de incêndios no Pará e no Amazonas ocorre em agosto, mas, neste ano, o período mais crítico começou em setembro; Capobianco atribuiu o atraso à influência do El Niño.

Na quarta-feira, Capobianco e autoridades do governo do Amazonas disseram que identificar e responsabilizar os autores de incêndios criminosos está entre as prioridades. A Polícia Civil do estado abriu 120 procedimentos criminais. Segundo o secretário de Segurança Pública, coronel Anézio Paiva, são Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs), usados para apurar infrações de menor potencial ofensivo, entre elas infrações ambientais.

A polícia usa drones com câmeras termais durante o dia, aeronaves com equipamentos térmicos à noite e equipes em terra. Mais de 100 denúncias anônimas recebidas pelo canal 181 foram verificadas, segundo Paiva. Ele afirmou que os casos são encaminhados a delegados e que, se houver identificação de organização criminosa, poderá ocorrer prisão em flagrante. O estado também utiliza um decreto que proíbe o uso do fogo como base para os procedimentos.

Capobianco disse que há suspeita de ação organizada, mas ressaltou que a hipótese ainda está sob investigação. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) participa da apuração para verificar se há uma dinâmica semelhante à do chamado Dia do Fogo, no Pará, em 2019, ou aos incêndios simultâneos registrados em São Paulo em 2024. O ministro afirmou que ainda não é possível confirmar essa relação.

O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jair Schmitt, informou que cerca de 75% das áreas com incêndios ficam em um raio de até 150 quilômetros de Manaus. A fumaça que encobriu a capital amazonense foi transportada por correntes de ar vindas do leste, segundo simulações do Lasa/UFRJ. A análise aponta possíveis contribuições de áreas com queimadas no Pará e na região metropolitana de Manaus, mas não permite, sozinha, determinar a origem exata da fumaça.

A fumaça elevou a concentração de partículas finas PM2.5, poluentes capazes de penetrar profundamente no sistema respiratório. Em medições citadas pela Defesa Civil municipal, o índice chegou a 200 microgramas por metro cúbico em Manaus na noite de quinta-feira, 8. O Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, ligado à Universidade do Estado do Amazonas, registrou pico de 344,5 microgramas por metro cúbico na madrugada de sexta-feira, 9; a Organização Mundial da Saúde recomenda que a média em 24 horas não ultrapasse 15 microgramas por metro cúbico.

Schmitt afirmou que as ações de combate continuam até que os incêndios sejam extintos. Ele também disse que houve redução dos eventos de fogo em razão do trabalho das equipes e de mudanças nas condições climáticas, incluindo chuvas recentes. Capobianco declarou que a atuação conjunta dos governos e das forças de segurança busca conter os focos e identificar os responsáveis.

Para entender

Focos de calor
São pontos detectados por satélites que indicam uma fonte de calor na superfície. Servem para monitorar possíveis queimadas, mas não equivalem necessariamente a incêndios distintos: um mesmo incêndio pode gerar vários registros, e a detecção não identifica por si só a causa do fogo.
El Niño
É um fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Pode alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões, embora seus efeitos variem de um episódio para outro.

Fontes: O Globo, Estadão

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