Europa discute guerra na Ucrânia, energia e crise fiscal em novembro
Conversas entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos estão previstas para Abu Dhabi, enquanto líderes europeus debaterão o financiamento de Kiev e o orçamento do bloco.
Resumo em 30 segundos
Em novembro, estão previstas conversas sobre a guerra na Ucrânia em Abu Dhabi e uma cúpula entre Reino Unido e União Europeia. Líderes do bloco também discutirão o orçamento de 2028 a 2034 e o financiamento de Kiev. A França enfrenta pressão fiscal e protestos, enquanto a alta do gás preocupa a Europa.
A guerra na Ucrânia, a crise fiscal e política na França, a energia e o debate sobre o Brexit voltaram a concentrar a atenção europeia nos últimos meses. Para novembro, estão previstas conversas entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos em Abu Dhabi, uma cúpula entre Reino Unido e União Europeia e decisões sobre o orçamento do bloco e o financiamento de Kiev.
A possibilidade de um acordo de paz ganhou novo contorno depois que o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, reconheceu que a Rússia também poderia receber garantias de segurança. Ele ressaltou, porém, que as garantias à Ucrânia devem vir primeiro e que a Europa precisa participar das negociações. Garantias de segurança são compromissos destinados a reduzir o risco de novos ataques e a dar respaldo a um acordo; o formato ainda está em discussão.
Equipes técnicas ucranianas, russas e americanas devem se reunir em Abu Dhabi na primeira quinzena de novembro. O Kremlin sugeriu o dia 10. Na terça-feira (27), o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, telefonaram para Vladimir Putin. Foi o primeiro contato direto de líderes europeus com o presidente russo desde julho do ano passado.
A movimentação ocorre enquanto Kiev acompanha com preocupação a aproximação entre Washington e Moscou. Negociadores dos dois países teriam discutido possíveis acordos comerciais para depois da guerra, envolvendo petróleo e espaço aéreo. Zelenski também disse ter ouvido sinais de que os Estados Unidos poderiam reduzir suas tropas na Europa. A presença militar americana no continente já havia sido pressionada por Donald Trump durante a cúpula da Otan, realizada em julho, em Ancara.
A guerra também passou a ser vista por governos europeus como uma ameaça que pode ultrapassar o campo de batalha. No começo de setembro, a Alemanha acusou Moscou de enviar um drone com explosivos contra um avião cargueiro em Leipzig. O episódio alimentou preocupações com ações híbridas, termo usado para descrever operações que combinam instrumentos militares e não militares, como sabotagem e desinformação.
O apoio europeu à Ucrânia enfrenta desafios políticos e financeiros. Uma pesquisa da Fundação Bertelsmann apontou que a maioria dos cidadãos não quer a entrada do país na União Europeia nos próximos anos; em março de 2022, logo após a invasão, 69% apoiavam essa possibilidade. Os líderes do bloco também terão de discutir cerca de 70 bilhões de euros que faltam para financiar a Ucrânia em 2027.
A reunião de líderes europeus marcada para 26 e 27 de novembro, em Bruxelas, tratará do orçamento da União Europeia para 2028 a 2034 e do financiamento de Kiev. A Alemanha e outros cinco países afirmam que não haverá acordo sem cortes de centenas de bilhões de euros na proposta da Comissão Europeia. As decisões serão tomadas com vários países se preparando para eleições, o que aumenta a disputa sobre prioridades e gastos comuns.
Na França, a pressão combina endividamento elevado, protestos e incerteza sobre a aprovação do orçamento. Em 21 de outubro, o Estado pagou 5% para se financiar por dez anos, a maior taxa desde 2002. A dívida está próxima de 120% do Produto Interno Bruto (PIB), e a previsão é que o déficit chegue a 5,4% neste ano.
O governo apresentou para 2027 um orçamento com 43 bilhões de euros em cortes e impostos, mas não tem maioria para aprová-lo. O prazo para a Assembleia Nacional votar o conjunto da proposta termina em 17 de novembro. Se não houver aprovação por votação, o governo pode recorrer ao artigo 49.3 da Constituição, que permite aprovar um texto sem votação parlamentar, sujeito a mecanismos de contestação política.
A crise fiscal se mistura à insatisfação com o custo de vida. Protestos terminaram em violência em 17 de outubro, e cinco centrais sindicais convocaram uma greve nacional e manifestações para 5 de novembro. O ministro das Finanças, Roland Lescure, afirmou que não há recursos para repetir a resposta adotada em 2019 diante dos protestos dos coletes amarelos. A eleição presidencial francesa está prevista para abril de 2027; Marine Le Pen aparece com 34% a 38% das intenções de voto no primeiro turno, segundo o instituto Ifop.
A energia é outro foco de preocupação. O estreito de Hormuz está praticamente fechado desde o fim de fevereiro, e o gás de referência europeu superou 100 euros por megawatt-hora na quarta-feira (28), nível que não era registrado desde dezembro de 2022. Antes da guerra, o valor era de cerca de 32 euros. Os estoques europeus estavam em 75% em 21 de outubro, abaixo da meta de 90% até 1º de novembro.
O Catar quase não enviou gás à Europa durante o verão, enquanto os Estados Unidos já respondem por cerca de 30% do consumo da União Europeia. O comissário europeu de Energia, Dan Jorgensen, alertou que o inverno será difícil. Na França, o diesel atingiu em setembro o recorde de 2,41 euros por litro, e a alta contribuiu para a mobilização nas ruas.
No Reino Unido, o primeiro-ministro Andy Burnham reabriu o debate sobre a relação com a União Europeia. Em 29 de setembro, no congresso trabalhista em Liverpool, disse que o Brexit fez mais mal do que bem. No dia seguinte, enumerou alternativas: manter o acordo atual, aderir à união aduaneira, voltar ao mercado único ou buscar a readesão ao bloco. Não indicou qual opção prefere.
A cúpula entre Reino Unido e União Europeia será realizada em 20 de novembro, quando Burnham promete apresentar as alternativas. O vice-líder do Reform UK, Richard Tice, acusou o primeiro-ministro de querer retornar a Bruxelas “pela porta dos fundos”. O debate ocorre em meio à disputa política sobre os efeitos da saída britânica do bloco e às negociações sobre a posição da Europa diante da guerra, da energia e do orçamento comum.
Para entender
- Artigo 49.3
- Dispositivo da Constituição francesa que permite ao governo aprovar um projeto de lei sem votação final na Assembleia Nacional. O uso do mecanismo pode ser contestado por meio de uma moção de censura, que, se aprovada, derruba o governo.