Copom deve manter Selic em 13,75% após piora das expectativas
XP, Itaú, Santander e BTG esperam juros estáveis, enquanto o UBS BB ainda prevê corte; o comunicado pode dar pistas sobre os próximos passos.
Resumo em 30 segundos
O Copom deve manter a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira, em meio à piora das projeções de inflação e às incertezas fiscais e cambiais. Entre os bancos citados, apenas o UBS BB ainda espera um corte. Investidores também acompanham o comunicado do comitê em busca de sinais sobre a duração da pausa.
O Comitê de Política Monetária (Copom) deve interromper nesta quarta-feira (4) o ciclo de redução da taxa básica de juros e manter a Selic em 13,75% ao ano. A decisão é esperada por parte expressiva do mercado após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a piora das expectativas para a inflação, o câmbio e as contas públicas.
A manutenção, porém, não é consenso. O UBS BB ainda projeta um corte de 0,25 ponto percentual, para 13,5% ao ano, embora considere significativo o risco de o comitê deixar os juros inalterados. XP, Santander, BTG Pactual e Itaú esperam que a taxa permaneça em 13,75% nesta reunião.
A revisão de expectativas também aparece no Boletim Focus, pesquisa do Banco Central com projeções de instituições financeiras. As estimativas para a Selic no fim de 2026 subiram de 13,25% para 13,5%, enquanto a previsão da XP passou a ser de 13,75%. Antes, a corretora esperava que a taxa terminasse o ano em 13,25% e chegasse a 11,5% no fim de 2027.
A XP também elevou as projeções de inflação medidas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A estimativa para 2026 avançou de 5,19% para 5,22%; para 2027, de 4,34% para 4,76%; para 2028, de 3,75% para 4%; e, para 2029, de 3,5% para 3,98%. O relatório da corretora foi o primeiro com respostas consolidadas após a reeleição.
Entre os fatores apontados para a deterioração das expectativas estão a alta recente do dólar, as incertezas sobre a política fiscal e o petróleo acima de US$ 100 por barril. A XP também citou o fenômeno climático El Niño. O Itaú avalia que o ambiente internacional ficou mais adverso desde a reunião anterior do Copom, com condições financeiras mais apertadas em economias desenvolvidas e nova alta do petróleo.
O BTG Pactual já esperava a manutenção em novembro, mas elevou de 12,5% para 13,75% sua projeção para a Selic no fim de 2027. Além dos riscos de inflação, o banco mencionou o fim da escala 6x1 como um fator de incerteza. O Santander, por sua vez, abandonou a previsão anterior de corte de 0,25 ponto percentual e passou a esperar a taxa estável nesta quarta-feira.
A Selic é a taxa básica de juros da economia e serve de referência para outras taxas de crédito, financiamento e aplicações financeiras. Quando o Banco Central a eleva ou a mantém em patamar alto, busca conter a demanda e reduzir pressões inflacionárias; a decisão também influencia o custo de empréstimos e o retorno de investimentos de renda fixa. O efeito sobre os preços não é imediato e depende de como a política monetária se transmite pela economia.
O mercado acompanha não apenas a decisão, mas também o comunicado do Copom, que poderá indicar como o comitê avalia os próximos passos. Uma manutenção pode representar uma pausa temporária no ciclo de cortes ou uma interrupção mais prolongada; o texto divulgado após a reunião será observado em busca de sinais sobre essa distinção. Na reunião anterior, em 16 de setembro, o colegiado evitou antecipar a trajetória dos juros e afirmou que novas informações orientariam a definição do ciclo.
A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. No modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido se a inflação acumulada permanecer por seis meses consecutivos fora desse intervalo. No cenário de referência divulgado pelo Copom, a projeção era de 5,2% para este ano, 3,9% para 2027 e 3,2% para o primeiro trimestre de 2028. O IPCA acumulado em 12 meses até setembro estava em 4,58%.
As dúvidas sobre a condução da política econômica e a trajetória da dívida pública também pressionam os juros futuros, que refletem as taxas negociadas para períodos adiante. Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 estavam em 13,627% ao ano; os de janeiro de 2029, em 15,13%; e os de janeiro de 2031, em 15,45%. Investidores tendem a exigir retornos maiores quando percebem mais risco fiscal ou inflação futura.
Rafael Meyer, gestor de portfólio da SWM Multi Family Office, afirmou que um corte neste momento poderia prejudicar a credibilidade do Banco Central, diante do dólar acima de R$ 5,48 e das expectativas de inflação em alta. Para ele, a reação do câmbio e as dúvidas sobre o compromisso fiscal podem obrigar a autoridade monetária a manter uma postura cautelosa, mesmo com a economia desacelerando.
Uma proposta de André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, também entrou no debate. O economista sugeriu reduzir gradualmente os juros ao longo de cerca de 12 meses, até aproximadamente 7,5% ao ano, e criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para estabelecer metas fiscais e monetárias com quatro a cinco anos de antecedência. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na terça-feira (3) que a ideia tem deficiências e não está em avaliação pelo governo. Ele defendeu um ajuste gradual das contas públicas.
Para os investidores, uma eventual redução inesperada poderia afetar o real e elevar ainda mais os juros futuros, enquanto uma comunicação mais dura poderia reforçar o compromisso do Banco Central com a convergência da inflação à meta. O teor do comunicado será, portanto, central para avaliar se a autoridade monetária considera que a mudança no cenário exige apenas uma pausa ou uma revisão mais duradoura do ciclo de cortes.