Arquitetos desmontam galpão histórico de madeira para preservar estrutura
O prédio projetado por Erwin Hauff está sendo desmontado peça por peça; o grupo busca um comprador que possa remontá-lo e definir um novo uso.
Resumo em 30 segundos
Arquitetos compraram um galpão de madeira na Barra Funda para evitar que fosse demolido e vendido como madeira comum. A desmontagem, ainda em andamento, é planejada para preservar as peças e permitir a remontagem. O grupo procura um comprador e considera usos públicos, como uma casa de shows ou uma praça coberta.
Uma equipe de arquitetos comprou e está desmontando um galpão de madeira na Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, para evitar que a estrutura seja demolida e vendida como madeira comum. A iniciativa começou em setembro, quando Márcio da Quinta e Silva e Mario Gaia reconheceram o prédio, projetado pelo engenheiro austríaco Erwin Hauff, durante uma visita à região. A desmontagem ainda está em andamento, e o grupo procura um comprador que possa remontá-lo e definir um novo uso.
O galpão já estava sob responsabilidade de uma empresa de demolição, que pretendia desmontá-lo para vender suas peças. Segundo Gaia, os arquitetos combinaram a compra em 24 horas e conseguiram reunir o dinheiro por meio de uma vaquinha. A estrutura foi adquirida na terça-feira seguinte à visita, embora o grupo ainda não tivesse os recursos necessários quando negociou a operação.
A pressa era necessária porque a demolidora precisava liberar o terreno para o empreendimento imobiliário. O atraso no destelhamento, porém, deu aos arquitetos algum tempo para organizar o trabalho. Quinta e Silva afirma que, se a estrutura fosse desmontada da maneira prevista inicialmente, ela poderia entrar em colapso.
Com vãos livres de 46 metros por 56 metros, o prédio é formado por treliças compostas de peças menores, unidas por cavilhas — pinos circulares de madeira. O sistema permite montar grandes estruturas a partir de componentes encaixados. Para planejar a desmontagem e evitar danos, a equipe mediu um dos módulos, produziu um levantamento e criou um modelo tridimensional que orienta os cálculos de escoramento.
A operação envolve também Heloisa Maringoni, calculista do novo Museu de Arte de São Paulo (Masp), e Valdemir Rosa, que trabalhou com o arquiteto João da Gama Filgueiras Lima, conhecido como Lelé. As arquitetas Cláudia Bassichetto e Ana Ennes se juntaram ao grupo inicial. A intenção é retirar o menor número possível de peças, facilitando a montagem futura.
Cada componente está sendo identificado e numerado. O processo é registrado com drones, tanto para documentar a sequência de desmontagem quanto para apresentar a estrutura a possíveis interessados. As peças seguem para galpões em um sítio em Suzano, onde poderão ser armazenadas até que seja definido o destino do conjunto.
O preço final ainda está em avaliação. Os integrantes estão organizando uma planilha com as despesas previstas e os custos efetivamente pagos, que deverão ser repassados ao futuro proprietário. O grupo afirma que já recebeu manifestações de interesse, mas ainda não fechou uma negociação.
Hauff, formado em Viena, mudou-se para o Brasil em 1922 e desenvolveu um sistema construtivo que patenteou em São Paulo. Ele foi sócio da E. Hauff & Cia. entre 1929 e 1942. O método usa peças de madeira encaixadas e dispensa cola, ao contrário de técnicas atuais como a madeira laminada colada cruzada, conhecida pela sigla em inglês CLT, que combina lâminas coladas em camadas.
O engenheiro também projetou estruturas de madeira dos ginásios do Pacaembu, restaurados recentemente. Outro exemplo remanescente de sua obra é um antigo hangar da Varig no aeroporto de Congonhas, tombado e destinado a funcionar como sala de embarque. Ricardo Caruana, um dos fundadores da Escola da Cidade e professor de técnicas construtivas, considera o galpão da Barra Funda uma das principais obras de Hauff. O edifício, escondido atrás de uma fachada de inspiração neoclássica, abrigou a sede administrativa das lojas Marisa.
Caruana defende o uso da madeira na construção por seu potencial de reduzir o consumo de materiais. Ele afirma que um edifício de concreto com dimensões equivalentes exigiria, apenas para as formas usadas na obra, cinco vezes a quantidade de madeira empregada no galpão. Embora Hauff tenha utilizado peroba-rosa, hoje ameaçada de extinção, estruturas do mesmo tipo podem ser feitas com madeira de eucalipto de reflorestamento.
A equipe espera que a estrutura seja remontada em um local com espaço para atividades abertas ao público. Caruana cita a possibilidade de uma casa de shows, favorecida pela altura do prédio, ou de uma praça coberta. Para ele, o uso público seria o destino mais desejável, mas a escolha dependerá de um proprietário e de um projeto que viabilizem a remontagem.
Para entender
- Erwin Hauff
- Engenheiro austríaco que se mudou para o Brasil em 1922 e desenvolveu um sistema de construção com peças de madeira encaixadas. Entre as estruturas associadas a seu trabalho estão os ginásios do Pacaembu e um antigo hangar da Varig em Congonhas.