Ueno Bank quebra e deixa milhões de clientes sem acesso às contas
Banco Central do Paraguai assumiu a instituição e a declarou insolvente; lei aprovada por parlamentares prevê acelerar indenizações a clientes.
Resumo em 30 segundos
O Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank e declarou a instituição insolvente, bloqueando o acesso de clientes às contas. A crise envolve suspeitas sobre empréstimos a empresas ligadas ao controlador Miguel Vázquez, depósitos públicos e a situação do presidente Santiago Peña. Uma lei prevê acelerar o pagamento das indenizações cobertas pelo seguro de depósitos.
O Banco Central do Paraguai assumiu o controle do Ueno Bank na terça-feira e declarou a instituição insolvente, deixando milhões de clientes sem acesso às contas. A intervenção ocorreu em meio a uma crise que levou à prisão do controlador do banco, Miguel Vázquez, e a uma turbulência política envolvendo o presidente Santiago Peña, que ofereceu renunciar diante da ameaça de impeachment.
A quebra atingiu uma instituição que havia se tornado o sexto maior banco do país em depósitos, após se fundir com o Visión Banco, em 2024. Mais de 1 milhão de paraguaios, em uma população de pouco mais de 6 milhões, abriram sua primeira conta bancária no Ueno, segundo o próprio banco. A instituição também patrocinava a seleção paraguaia de futebol, cujos jogadores tentam recuperar milhões de dólares depositados nela.
A crise ganhou força após a divulgação de documentos internos e correspondências do Banco Central que levantavam dúvidas sobre as práticas de crédito do Ueno. Em setembro, o regulador abriu uma investigação formal e determinou que o banco revisasse seus balanços. Depois das correções, o índice de solvência caiu abaixo do mínimo exigido, de 50%. Esse indicador mede a capacidade de uma instituição de absorver perdas em relação aos riscos assumidos; ficar abaixo do limite regulatório sinaliza que ela não dispõe do capital mínimo requerido.
A intervenção ocorreu poucos dias depois de notícias sobre empréstimos do Ueno a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlado por Miguel Vázquez. Os valores teriam excedido os limites legais e não teriam sido classificados corretamente no balanço. A equipe do BID Invest, braço do Banco Interamericano de Desenvolvimento voltado a investimentos no setor privado, havia identificado em 2025 problemas semelhantes em operações entre empresas do mesmo grupo.
O BID Invest avaliou comprar participação no Ueno após emprestar à instituição quase US$ 20 milhões em 2024. Uma visita à sede do banco, em Assunção, no ano seguinte levantou preocupações entre integrantes da equipe, inclusive sobre a concessão de crédito a empresas relacionadas e a taxa de inadimplência informada pelo banco, de 2% — metade da registrada por concorrentes mais experientes. O BID Invest não comentou o caso, e não recebeu de volta todo o empréstimo, segundo pessoas familiarizadas com a situação.
A dependência de recursos públicos também está sob escrutínio. Os depósitos de órgãos públicos cresceram depois que Peña assumiu o cargo, em 2023, e somavam cerca de 5 trilhões de guaranis, equivalentes a US$ 869 milhões, ou 29% dos depósitos do Ueno, no fim de junho. Ainda não está claro o destino desses recursos após a intervenção.
O seguro de depósitos paraguaio, semelhante ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) no Brasil, cobre valores de até US$ 38 mil. Na quarta-feira, parlamentares aprovaram uma lei para que o Banco Central acelere o pagamento das indenizações aos clientes com dinheiro retido. O mecanismo de garantia busca proteger depositantes até o limite estabelecido, mas não cobre automaticamente valores acima dele.
A quebra também repercute fora do Paraguai. Em março, o Ueno emitiu US$ 350 milhões em títulos, a maior operação desse tipo feita por uma instituição financeira paraguaia. Os papéis, que eram negociados a 85 centavos por dólar na terça-feira, valiam menos de 10 centavos no fechamento do mercado na quinta-feira. A instituição havia atraído ainda um aporte de US$ 47 milhões do banco húngaro OTP, que informou ser acionista minoritário, com menos de 10% do capital e sem controle ou participação na gestão.
O Ueno havia se apresentado como um banco digital de rápido crescimento, com foco em ampliar o acesso de novos clientes ao sistema financeiro. A instituição afirmou em carta aberta que contava com US$ 814 milhões em financiamentos de fontes nacionais e internacionais e do mercado de capitais. A crise, porém, abriu uma disputa política no Paraguai, onde o Partido Colorado domina o cenário nacional há quase sete décadas, e levou o diretor do Banco Central, ex-funcionário do Ueno, a pedir demissão.