Santiago Schnell renuncia à reitoria de Dartmouth após investigação
O comitê concluiu que o uso de inteligência artificial alterou textos do pesquisador e violou regras de divulgação de pelo menos uma publicação.
Resumo em 30 segundos
Santiago Schnell deixou a reitoria da Dartmouth College e sairá da universidade após uma investigação sobre o uso de inteligência artificial em textos acadêmicos e artigos. Um comitê independente concluiu que ele descumpriu exigências de transparência de publicações. Schnell afirma que usou a tecnologia como ferramenta de apoio e que responde pelo conteúdo final.
Santiago Schnell renunciou ao cargo de reitor da Dartmouth College, nos Estados Unidos, após uma investigação concluir que ele usou inteligência artificial (IA) em textos acadêmicos e artigos sem cumprir regras de divulgação de algumas publicações. A decisão foi comunicada nesta quarta-feira pela presidente da universidade, Sian Leah Beilock, que afirmou que Schnell também deixará a instituição.
Um comitê independente formado por professores examinou escritos do pesquisador e concluiu que o uso de IA alterou de forma significativa textos de Schnell. Segundo o relatório da Dartmouth, essa prática violou ao menos uma exigência de uso ou divulgação de IA de uma publicação, além de contrariar a política declarada de um jornal nacional. O comitê também considerou que ele não foi transparente e ficou abaixo de padrões previstos em códigos de conduta acadêmica.
A universidade terá um reitor interino até 2028, de acordo com Beilock. Schnell havia assumido a posição de principal dirigente acadêmico da instituição no início do ano letivo de 2025-26. Antes, foi reitor da Faculdade de Ciências da Universidade de Notre Dame e ocupou espaço público como defensor de mudanças no ensino superior, inclusive em universidades católicas.
A investigação ganhou visibilidade depois de uma reportagem publicada em setembro pelo jornal estudantil The Dartmouth. O texto apontou que escritos de Schnell produzidos desde 2022 — entre artigos acadêmicos e textos de opinião — foram identificados por uma ferramenta de detecção como predominantemente gerados por IA. A apuração foi motivada por um levantamento anterior da Semafor, que havia sinalizado como totalmente produzido por IA um artigo de opinião de Schnell publicado no The Washington Post sobre como combater a trapaça escolar facilitada por essas ferramentas.
Em resposta às acusações, Schnell disse que emprega IA para aprimorar a linguagem, revisar, tornar ideias mais claras, organizar textos e agilizar a escrita. Afirmou, porém, que revisa a versão final e responde pelo conteúdo. Segundo ele, as ideias, os argumentos, a pesquisa, a avaliação das fontes e das evidências e a decisão sobre o que entra no texto são de sua responsabilidade.
Schnell também questionou a confiabilidade dos detectores de IA. Disse que há evidências de que essas ferramentas podem ser tendenciosas contra pessoas que não têm o inglês como língua materna, como ele. A investigação não avaliou apenas se a tecnologia foi usada, mas também se o autor comunicou esse uso conforme as regras estabelecidas por revistas e jornais.
A controvérsia se dá enquanto universidades e publicações ainda definem limites para o uso de ferramentas de inteligência artificial na produção de textos. Modelos de linguagem de grande escala, conhecidos pela sigla LLM, são sistemas treinados com grandes volumes de texto e capazes de gerar ou revisar conteúdo a partir de instruções. Podem auxiliar tarefas como preparar perguntas ou organizar informações, mas seu uso não elimina a necessidade de transparência quando uma publicação exige que seja informado.
Schnell havia defendido publicamente aplicações da IA na educação. Em textos e entrevistas, afirmou que a tecnologia poderia levar escolas e universidades a investir mais em aprendizagem personalizada e em métodos de menor uso de telas. Também escreveu que professores poderiam recorrer a modelos de linguagem para elaborar questões de discussão, pesquisadores para agilizar buscas bibliográficas e administradores para acelerar tarefas rotineiras de escrita.
Sua nomeação havia sido recebida com entusiasmo por alguns defensores de uma formação universitária mais centrada em valores clássicos, como beleza, verdade e amizade. Em junho, durante uma assembleia da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos em Orlando, na Flórida, Schnell disse que os bispos poderiam ser mais atuantes na defesa da missão das universidades católicas de formar santos.
Após a renúncia, colegas manifestaram surpresa e questionaram se o caso foi tratado com critérios consistentes. Jennifer Frey, filósofa católica da Universidade da Virgínia, disse que se opõe à escrita com IA, mas considerou chocante a decisão diante da falta de normas claras no ensino superior. Ela também apontou que a própria Dartmouth teria promovido o uso de modelos de linguagem para complementar métodos tradicionais de ensino.
Jeremy Tate, fundador e diretor-executivo do Classical Learning Test, afirmou que a saída representa uma perda e perguntou se Schnell recebeu escrutínio adicional por suas posições. Ele não negou que o acadêmico possa ter cometido um erro, mas defendeu que a discussão sobre IA e os padrões de uso deve continuar. A Dartmouth, por sua vez, mantém a conclusão do comitê independente de que Schnell descumpriu exigências de transparência aplicáveis a parte de seus textos.