Ricardo Zúñiga diz que Trump recebe visão filtrada dos Bolsonaro
Ex-cônsul afirma que a Casa Branca tem pouco diálogo com outras forças políticas do Brasil e pode desconhecer mudanças entre lideranças da direita.
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Ricardo Zúñiga, ex-cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, diz que o governo de Donald Trump recebe informações sobre a política brasileira principalmente por meio da família Bolsonaro. Para ele, a falta de diálogo com outras correntes pode deixar Washington sem conhecer mudanças entre lideranças da direita. A disputa também preocupa empresas dos dois países.
Ricardo Zúñiga, ex-cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, afirmou que o governo de Donald Trump recebe informações sobre a política brasileira principalmente por meio da família Bolsonaro e mantém pouco diálogo com outras correntes, inclusive da direita. Em entrevista concedida em Washington, ele relacionou essa visão à proximidade dos irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro com Steve Bannon e Jason Miller, interlocutores de Trump.
Segundo Zúñiga, essa falta de contato com outras lideranças pode levar autoridades americanas a desconhecer mudanças de posição entre políticos brasileiros. Ele citou Tarcísio de Freitas como um nome pouco conhecido em Washington e disse que a Casa Branca provavelmente não sabe que lideranças da direita que apoiaram Flávio passaram a rejeitar decisões dele depois de sua ida aos Estados Unidos.
Bannon, ideólogo da direita americana e figura de destaque durante o primeiro mandato de Trump, continua sendo ouvido pelo presidente, embora tenha perdido influência, segundo Zúñiga. Miller é descrito como um interlocutor direto de Trump e costuma ser classificado pela imprensa americana como “special government employee” — alguém que não integra formalmente o governo, mas pode atuar em determinadas questões como funcionário governamental.
Miller também foi associado à organização da viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. Uma reportagem do The New York Times afirmou que ele participou diretamente dos preparativos e providenciou o jato particular usado pelo senador e sua família. Flávio chegou ao país na quarta-feira com a mulher e as duas filhas e disse que pretende comandar a oposição brasileira a partir de lá.
O senador afirmou ser alvo de perseguição no Brasil e declarou, sem apresentar provas, que as eleições foram fraudadas. Aliados brasileiros contestaram suas alegações, segundo Zúñiga. A decisão de conceder visto a Flávio e a postura de Trump de ainda não reconhecer a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva também foram questionadas pela oposição americana, disse o ex-cônsul.
O reconhecimento da vitória de um presidente eleito não é uma exigência formal, mas costuma ser tratado como uma cortesia diplomática entre países. Zúñiga afirmou que um grupo ideológico próximo a Trump pressiona por apoio à posição de Flávio e que, na sua avaliação, o presidente americano recebe informações filtradas pela família Bolsonaro, sem ouvir outras forças políticas do Brasil.
Zúñiga foi assessor do governo Barack Obama para assuntos latino-americanos e deixou funções de Estado em 2023. Hoje, trabalha como consultor na Dinámica Americas. Ele avalia que as decisões sobre a disputa política brasileira terão pouca relevância nas eleições legislativas americanas da próxima semana, mas podem afetar a relação econômica entre os países.
Empresas dos dois países acompanham a crise, afirmou Zúñiga. Segundo ele, os atores comerciais que conhece não contestam os resultados eleitorais e esperam relações transparentes entre os governos; a disputa política, disse, está desviando a atenção dos temas comerciais e de Estado.