Flávio Bolsonaro contesta eleição e anuncia oposição dos EUA
Em carta divulgada após chegar a Miami, senador alega fraude sem provas; a Justiça Eleitoral reconhece a vitória de Lula por mais de 4 milhões de votos.
Resumo em 30 segundos
Flávio Bolsonaro divulgou versões diferentes de uma carta em que contestou, sem apresentar provas, o resultado da eleição e anunciou que pretende liderar a oposição dos Estados Unidos. Aliados e dirigentes partidários defenderam o respeito às urnas. Dados eleitorais indicam que os votos registrados após as 17h não mudaram o resultado.
Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial, publicou na quarta-feira, dos Estados Unidos, uma carta em que contestou sem apresentar provas o resultado das urnas e anunciou que pretende liderar a oposição a partir do exterior. O senador divulgou versões diferentes do texto horas depois de chegar a Miami com a família, após deixar o Brasil e passar pela Argentina e pelo Equador.
Na primeira versão, Flávio se apresentou como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, embora Lula tenha vencido por mais de 4 milhões de votos. Em outra redação, o senador trocou a expressão por “líder do Brasil”. O documento também teve alterações no brasão: a versão inicial mostrava o símbolo antigo, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, depois substituído pelo atual, “República Federativa do Brasil”.
O brasão é um dos símbolos oficiais do país e aparece, entre outros usos, em documentos e órgãos públicos. A inscrição “Estados Unidos do Brazil” remete à denominação adotada após a Proclamação da República e mantida até a mudança para “República Federativa do Brasil”. A carta ainda passou por três versões divulgadas ao longo da tarde, com alterações na apresentação de Flávio e no símbolo nacional.
O senador alegou que o segundo turno teria sido fraudado e responsabilizou uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que prorrogou o horário de votação em duas horas. Ele afirmou que a medida teria permitido a Lula obter mais de 10 milhões de votos adicionais, mas não apresentou provas para sustentar a acusação.
Dados da Justiça Eleitoral indicam que cerca de 34 mil pessoas votaram depois das 17h, horário previsto para o encerramento. Esse total corresponde a 0,027% dos votos, segundo um levantamento citado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e não altera a diferença superior a 4 milhões de votos entre os candidatos. Eleitores que já estavam na fila e tinham recebido senha podiam votar após o horário limite.
A decisão sobre o horário ocorreu depois de questionamentos sobre dificuldades de deslocamento de eleitores. PT e PL apresentaram pedidos de mais tempo de votação, mas apenas o PT levou a demanda ao STF. A Justiça Eleitoral reconheceu o resultado da eleição; o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que questionamentos encaminhados pelos meios legais serão analisados e reiterou o compromisso do tribunal com a vontade do eleitorado.
A contestação provocou críticas e manifestações de reconhecimento do resultado também entre políticos de direita. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse compreender a indignação de Flávio, mas defendeu que se respeite a eleição e que a oposição atue dentro das instituições. Para ele, o momento exige responsabilidade e serenidade.
O senador Rogério Marinho (PL), que coordenou a campanha de Flávio, afirmou que não há provas de fraude e que nem o partido nem ele poderiam fazer essa afirmação. Marinho também disse que a referência a Flávio como líder do Brasil correspondia ao que considerava ser a posição dele. O presidente do PSDB, Aécio Neves, chamou a carta de “absolutamente imprópria” e disse que o papel de quem perde é fiscalizar o governo e fazer oposição.
Dirigentes do União Brasil e do PSD também defenderam o respeito às urnas. O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, afirmou que a eleição transcorreu com lisura e que a democracia não depende de quem vence ou perde. Gilberto Kassab, presidente do PSD, reafirmou o compromisso do partido com a democracia e citou a necessidade de manter uma relação institucional com o governo eleito.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), declarou que reconhece o resultado e que cabe à oposição fiscalizar a gestão de Lula. O presidente do TSE não citou Flávio diretamente em sua manifestação, mas ressaltou que as eleições transcorreram dentro da normalidade, apesar da instabilidade registrada no fim da votação do segundo turno.
O pastor Silas Malafaia, aliado da família Bolsonaro, criticou a condução do episódio em mensagens enviadas a aliados. Em uma delas, chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de “jumentos” e escreveu que eles “só se aconselham com gente errada”. Malafaia também atribuiu a Donald Trump a decisão de não se envolver na disputa brasileira. O presidente dos Estados Unidos afirmou que não queria participar do assunto; antes, havia feito comentários ambíguos sobre a eleição.
Flávio disse que pretende apresentar nos próximos dias uma estratégia para mobilizar apoiadores. Sua permanência fora do Brasil, porém, gerou dúvidas entre aliados, enquanto Tarcísio foi apontado por integrantes da direita como um nome fortalecido. O senador deixou o país depois de uma determinação de Alexandre de Moraes, do STF, para entregar os passaportes; segundo a Polícia Federal, havia risco de fuga.
Partidos de esquerda também divulgaram uma nota conjunta em que rejeitaram interferência estrangeira no processo eleitoral e defenderam a legitimidade da vitória de Lula. O governo federal pretende não responder diretamente à carta, deixando as críticas a partidos e parlamentares da base. Flávio, por sua vez, anunciou que fará oposição dos Estados Unidos, sem detalhar ainda como pretende organizar essa atuação.
Para entender
- Tribunal Superior Eleitoral
- O TSE é o órgão máximo da Justiça Eleitoral brasileira. Organiza e supervisiona as eleições, julga questões eleitorais dentro de sua competência e divulga os resultados oficiais da votação.