Polícia Federal não encontra cocaína em amostras de madeira apreendida
Os exames deram negativo para drogas, mas a PF abriu inquérito para apurar por que testes preliminares indicaram entorpecentes na carga.
Resumo em 30 segundos
A perícia da Polícia Federal não encontrou cocaína nem outros entorpecentes nas nove amostras de madeira examinadas após a Operação Timber Shield. A Receita Federal diz que testes preliminares indicaram drogas, e parte das análises em Corumbá ainda está pendente. A PF investiga o caso, inclusive a hipótese de comunicação falsa de crime.
A Polícia Federal não encontrou cocaína nem outros entorpecentes nas amostras de madeira apreendidas em junho na Operação Timber Shield, que interceptou oito caminhões em Corumbá (MS) e Cáceres (MT). O resultado contrasta com o anúncio inicial da Receita Federal de que a carga poderia conter até 50 toneladas da droga e levou a PF a abrir um inquérito para investigar o caso, inclusive a hipótese de comunicação falsa de crime.
A carga apreendida somava 260 toneladas de madeira. Na época da operação, a Receita afirmou que narcotestes preliminares haviam indicado a presença de entorpecentes. A hipótese era de que cocaína líquida tivesse sido impregnada nas fibras da madeira, método que havia sido identificado em outra apreensão na região.
A possibilidade de haver entre 20 e 50 toneladas de cocaína foi estimada com base em ocorrências anteriores, segundo a divulgação feita durante a operação. O cálculo considerava que a droga poderia representar de 10% a 20% do peso da madeira. A expectativa de confirmação dependia, porém, de exames laboratoriais da Polícia Federal.
Na análise pericial, foram escolhidas aleatoriamente peças da carga e coletadas nove amostras: cinco de serragem e quatro de lascas. Os peritos usaram ferramentas como motosserras e furadeiras para obter o material. Todos os testes e exames instrumentais realizados nas amostras tiveram resultado negativo para cocaína.
Depois da perícia, a madeira também foi submetida a uma nova inspeção com cães farejadores, que não detectaram drogas. A polícia boliviana já havia descartado a presença de cocaína na carga. O comandante da polícia do país, Mirko Sokol, havia dito à imprensa boliviana que as informações preliminares não apontavam motivos para prosseguir com a investigação.
A Receita Federal afirmou que os testes preliminares realizados por seus agentes indicaram entorpecentes. Segundo o órgão, a Aduana Boliviana e a Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (FELCN), unidade antidrogas da polícia boliviana, também aplicaram narcotestes que deram resultado indicativo de droga. Esses testes servem como triagem, mas não substituem a análise pericial definitiva, que identifica substâncias com procedimentos laboratoriais.
Em nota, a Receita confirmou que a perícia da PF em Cáceres foi concluída com resultado negativo para substâncias ilícitas. O órgão informou, contudo, que a apuração em Corumbá ainda não terminou e que há análises pendentes no Instituto Nacional de Criminalística (INC). A PF acompanha o caso, e o Ministério Público Federal foi informado sobre o inquérito.
A investigação busca esclarecer por que os testes iniciais apontaram droga enquanto as análises posteriores não encontraram substâncias ilícitas. A hipótese de comunicação falsa de crime está entre os delitos examinados, mas a abertura do inquérito não significa que alguém tenha sido responsabilizado. A apuração também pode esclarecer se houve falha nos testes, na coleta ou na interpretação dos resultados preliminares.
A operação foi conduzida pela Receita em conjunto com a Polícia Federal e o Exército, com colaboração de autoridades dos Estados Unidos e da Bolívia. Os caminhões foram interceptados em postos de controle na faixa de fronteira com a Bolívia. De acordo com as informações reunidas durante a ação, a madeira seria transportada para Mato Grosso do Sul e Paraná; parte da carga passaria por Campo Grande.
A suspeita inicial ganhou força após uma apreensão de madeira com cocaína líquida no Chile, cerca de 15 dias antes da ação brasileira. A Receita informou que os dados compartilhados por autoridades antidrogas dos Estados Unidos relacionavam as duas cargas e apontavam uma origem comum na Bolívia. A existência desse vínculo foi usada para justificar o monitoramento dos caminhões, mas não altera o resultado negativo encontrado nas amostras brasileiras.
No dia 21 de junho, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou que, se o volume estimado fosse confirmado, a apreensão seria a maior de cocaína da história do Brasil e uma das maiores do mundo. Ele também afirmou que a operação demonstrava a importância da integração entre fiscalização aduaneira, inteligência, investigação criminal e cooperação internacional. Com os resultados periciais divulgados, a estimativa de droga não foi confirmada nas amostras examinadas.
A Receita rejeitou críticas à sua atuação e manifestou preocupação com questionamentos baseados em fontes não identificadas. A PF continua a investigação, enquanto aguardam-se os exames ainda pendentes em Corumbá. O desfecho poderá esclarecer a origem dos resultados preliminares e se houve algum crime relacionado à comunicação de que a carga continha cocaína.
Para entender
- Narcotestes
- São testes preliminares usados para indicar a possível presença de drogas. Funcionam como triagem e não substituem exames laboratoriais periciais, que analisam as amostras com procedimentos capazes de identificar substâncias.