PL usa medidas contra Flávio para buscar apoio a Marinho no Senado
A articulação mira a eleição da presidência da Casa em 2027, mas o partido precisa atrair senadores do Centrão e ainda não tem maioria para superar Davi Alcolumbre.
Resumo em 30 segundos
O PL pretende usar as medidas restritivas impostas a Flávio Bolsonaro como argumento para ampliar o apoio à candidatura de Rogério Marinho à presidência do Senado em 2027. A oposição critica a atuação do Judiciário, mas especialistas divergem sobre a interpretação política do caso. A disputa dependerá de negociações com outras bancadas e de votos suficientes.
A oposição no Senado pretende usar as medidas restritivas impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para ampliar o apoio à candidatura de Rogério Marinho (PL-RN) à presidência da Casa, em 2027. Parlamentares de direita dizem que o episódio reforça a necessidade de limitar a influência do Judiciário sobre o Legislativo; a avaliação é contestada por especialistas e ainda não se traduziu em uma maioria para a disputa.
O plano do PL é convencer senadores do Centrão de que a reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP), atual presidente do Senado, manteria a Casa vulnerável a decisões judiciais que, na visão da oposição, afetam suas prerrogativas. Alcolumbre tem barrado pedidos de impeachment de ministros do STF, segundo o relato publicado, e é apontado pelos opositores como símbolo de uma relação de subordinação entre os Poderes.
Flávio está nos Estados Unidos depois de viajar para o país, e sua ausência abriu espaço para que Marinho assuma maior protagonismo na articulação do PL no Congresso. A bancada pretende tratar as medidas de Moraes como um alerta de que decisões judiciais podem atingir outros senadores e usar esse argumento nas conversas com parlamentares indecisos e recém-chegados à Casa.
A leitura de que as medidas tiveram motivação política é defendida por interlocutores da oposição, mas não é apresentada como fato comprovado. O advogado constitucionalista Rubens Beçak afirmou que a decisão de Moraes foi uma “revanche” e relacionou o momento em que ela foi decretada a um pedido da Polícia Federal. Segundo ele, a medida veio minutos depois da proclamação dos resultados eleitorais.
Beçak disse que a proximidade entre a decisão e a divulgação dos resultados, contra um senador em exercício de mandato e presidenciável, demonstraria um “espírito persecutório, revanchista”. A avaliação é do especialista. Já o advogado Fábio Souto afirmou que, a princípio, as medidas não podem ser consideradas interferência velada na eleição do comando do Senado, embora tenha criticado relações que classificou como suspeitas envolvendo ministros do Supremo.
A articulação do PL enfrenta um desafio numérico. A matéria estima que o partido terá 29 senadores no próximo ano, mas a bancada ainda precisaria atrair integrantes de partidos do Centrão, como PSD, Republicanos e MDB, para construir uma maioria e superar Alcolumbre. A presidência é decidida pelos próprios senadores, e a composição da Mesa Diretora e das comissões depende de acordos entre as bancadas.
Alcolumbre, por sua vez, dispõe de instrumentos de negociação ligados ao comando do Senado. A distribuição de cargos em comissões, relatorias, imóveis e gabinetes, além de espaços orçamentários da Casa, pode ser usada para buscar apoio. A federação União Progressista também confirmou apoio ao senador do Amapá, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é apontado por Beçak como um aliado relevante de Alcolumbre.
O analista político Elias Tavares avalia que o episódio pode ampliar a mobilização da direita e a pressão sobre os senadores, mas ressalta que isso não garante votos suficientes para levar adiante processos de impeachment. Para aprovar uma iniciativa desse tipo, não basta a pressão pública: é necessário obter apoio dentro do Senado, onde os parlamentares decidem se dão andamento aos pedidos.
Souto também afirmou que vínculos de ministros do STF que considerou duvidosos precisam ser esclarecidos e investigados. A crítica, assim como a interpretação de perseguição política, é atribuída aos entrevistados e a interlocutores da oposição; não há, no texto, comprovação de que as medidas contra Flávio tenham sido tomadas para interferir na disputa pela presidência do Senado.
A sucessão de Alcolumbre está prevista para 2027, e a tentativa do PL dependerá de negociações com outras bancadas. A oposição quer transformar o caso de Flávio em argumento para atrair aliados, enquanto o atual presidente busca conservar apoio por meio de acordos na estrutura do Senado. A disputa, portanto, será definida pela capacidade dos dois grupos de reunir votos, e não apenas pela repercussão do episódio envolvendo Moraes.