Kitchens pede recuperação judicial com 950 clientes sem móveis
O pedido inclui R$ 299,9 milhões em créditos, dos quais ao menos R$ 187 milhões são de clientes que pagaram por móveis não entregues.
Resumo em 30 segundos
A Kitchens pediu recuperação judicial após acumular R$ 299,9 milhões em créditos. Cerca de 950 clientes que pagaram por móveis e não os receberam respondem por pelo menos R$ 187 milhões. O pedido ainda aguarda análise da Justiça; se for autorizado, a empresa terá 60 dias para apresentar um plano aos credores.
A Kitchens, fabricante de móveis planejados de alto padrão, pediu recuperação judicial na quarta-feira (28), após acumular R$ 299,9 milhões em créditos sujeitos ao processo. Cerca de 950 consumidores que pagaram por móveis e não receberam os produtos representam pelo menos R$ 187 milhões desse total, segundo a relação de credores apresentada pela empresa à Justiça. O pedido ainda aguarda análise judicial.
Os clientes sem os móveis concentram mais de 60% das dívidas incluídas no processo. A lista identifica esses valores como referentes a “pedido não entregue”. Como consumidores integram a classe dos credores quirografários — aqueles sem garantia específica sobre bens da empresa —, sua participação pode influenciar a votação de um futuro plano de recuperação.
Nessa classe, a aprovação depende da maioria dos credores presentes à assembleia e de mais da metade do valor dos créditos representados. A advogada Ana Carolina Monteiro, especialista em reestruturação, afirmou que a dispersão dos consumidores e a baixa participação em assembleias podem dificultar a mobilização, embora o número de clientes dê a eles potencial para influenciar a decisão.
A empresa atribuiu a crise a juros elevados, queda nas vendas de móveis e crédito bancário mais caro. Em documentos apresentados à Justiça, afirmou que seu modelo depende de receber pagamentos de novos pedidos para custear a produção de contratos anteriores. Segundo a Kitchens, a retração da demanda e o encarecimento do crédito aumentaram a necessidade de financiamento externo, enquanto a dívida passou a superar a capacidade de geração de caixa da operação.
A fabricante sustenta que a crise não resulta de perda de espaço da marca no mercado. O cenário do setor, porém, inclui retração nas vendas: de janeiro a agosto, o volume comercializado no varejo brasileiro de móveis e colchões caiu 2,4% em comparação com o mesmo período de 2025. Em São Paulo, principal mercado da Kitchens, a queda foi de 7,5%.
Os balanços anexados ao pedido mostram que, em 2025, a fábrica e a empresa responsável pela administração das lojas tiveram prejuízo conjunto de R$ 64,6 milhões, com receita líquida de R$ 194 milhões. As despesas financeiras somaram R$ 30,4 milhões. Ao fim daquele ano, o grupo havia recebido R$ 124,5 milhões de clientes por pedidos ainda não entregues. No início de 2026, operava dez lojas próprias e seis franquias.
O pedido de recuperação judicial não encerra automaticamente os contratos nem impede, por si só, que os consumidores cobrem a entrega dos móveis. A advogada Carolina Mascarenhas afirmou que a fabricação e a entrega fazem parte da atividade da empresa, mas a possibilidade de cumprimento depende do contrato, do estágio de produção e da capacidade financeira e operacional da Kitchens.
Um plano de recuperação pode propor a entrega dos produtos como forma de pagamento, desde que a fábrica tenha condições de produzi-los e o cliente não tenha cancelado o contrato. Para quem preferir receber o dinheiro de volta, as condições dependerão do plano e da votação dos credores. Monteiro alertou que credores quirografários podem enfrentar descontos, espera antes do início dos pagamentos e parcelamentos longos. Alguns planos, acrescentou, criam condições específicas para pequenos credores.
O Procon-SP afirma que a recuperação judicial não suspende automaticamente as obrigações da empresa nem altera os direitos previstos em contrato. Segundo o órgão, prazos, entregas e canais de atendimento devem ser mantidos, assim como os pagamentos devidos pelos consumidores. Quem tiver problemas pode procurar primeiro a empresa e, se não conseguir solução, recorrer ao Procon de sua cidade ou Estado ou ao Judiciário. O órgão recomenda guardar documentos da contratação e do andamento do pedido.
A pressão também aparece nos registros judiciais e trabalhistas. A Kitchens informou que o grupo responde a 366 ações abertas em 2026, ante 47 durante todo o ano de 2025; 155 dos processos deste ano são trabalhistas. A relação de credores prevê ainda verbas rescisórias para cerca de 280 funcionários, com valores sujeitos a confirmação no desligamento.
A Justiça determinou que o caso seja encaminhado a uma vara regional empresarial competente para Guarulhos, onde fica a fábrica. A empresa também pediu a suspensão das cobranças contra o grupo, mas essa medida ainda não havia sido decidida. Se o processamento da recuperação for autorizado, a Kitchens terá 60 dias para apresentar um plano aos credores.
Para entender
- Credores quirografários
- São credores que não têm uma garantia específica vinculada a bens da empresa para assegurar o pagamento. Na recuperação judicial, os consumidores da Kitchens estão nessa classe, cuja votação do plano considera tanto a quantidade de credores presentes quanto o valor dos créditos representados.