Meta veicula 1.613 anúncios políticos irregulares no Brasil
Levantamento da UFRJ estima que as campanhas somaram R$ 2 milhões e alcançaram 171,1 milhões de impressões entre julho e setembro de 2026.
Resumo em 30 segundos
Estudo do NetLab, da UFRJ, identificou ao menos 1.613 anúncios políticos irregulares veiculados pela Meta no Brasil entre julho e setembro de 2026. Pagos por 187 anunciantes, eles somaram R$ 2 milhões e tiveram 171,1 milhões de impressões. A Meta disse que anúncios foram recategorizados ou removidos por violarem suas políticas.
A Meta veiculou ao menos 1.613 anúncios políticos irregulares no Brasil entre julho e setembro de 2026, segundo levantamento do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As campanhas, impulsionadas por 187 anunciantes nas plataformas da empresa, somaram R$ 2 milhões em pagamentos feitos em moedas estrangeiras e tiveram 171,1 milhões de impressões — exibições nas telas dos usuários.
O estudo identificou anúncios relacionados a 70 candidatos. Quase todos os pagamentos foram feitos em dólares: essa moeda correspondeu a 99,5% do total. Entre as campanhas que informaram a localização do pagador, 98,1% apontavam os Estados Unidos como origem.
A principal fonte pagadora identificada foi a Corporativo Lam, LCC, responsável por 1.076 campanhas, ou 97,3% dos anúncios com identificação do pagador. O NetLab estima que a empresa possa ter investido até R$ 1,6 milhão. O levantamento não identificou a quem a fonte está vinculada e afirma que ela promoveu ou atacou candidatos diferentes, por vezes em sentidos contraditórios.
As regras eleitorais proíbem publicidade eleitoral financiada por fonte estrangeira e limitam o impulsionamento de propaganda política a candidatos, partidos, federações e coligações. Também vedam propaganda negativa impulsionada e exigem que os anúncios eleitorais tragam o rótulo de “propaganda eleitoral” e identifiquem quem pagou.
A equipe encontrou peças sem esses avisos e anúncios de propaganda negativa. A coleta foi feita na biblioteca de anúncios da Meta, com buscas por termos ligados aos candidatos e às eleições. Os pesquisadores consideraram campanhas pagas em moeda diferente do real, incluindo anúncios que inicialmente não foram classificados como políticos e depois receberam essa classificação ou foram retirados do ar.
Por esse método, o total identificado pode ser inferior ao número real de anúncios irregulares, assim como a estimativa de receita obtida pela plataforma. O valor de R$ 2 milhões corresponde à conversão das moedas estrangeiras pelas cotações de 1º de outubro de 2026.
A cifra seria equivalente ao 11º maior investimento em publicidade política nas plataformas da Meta no período, caso representasse um único candidato. Entre os políticos citados no levantamento, Fernando Haddad (PT) gastou R$ 2,4 milhões em anúncios sobre sua campanha ao governo de São Paulo, entre 5 de julho e 3 de outubro, enquanto Tarcísio de Freitas investiu R$ 3 milhões. Os maiores valores foram os de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com R$ 9,4 milhões, e Flávio Bolsonaro (PL), com R$ 6,8 milhões.
A diretora do NetLab, Marie Santini, disse que a veiculação de anúncios considerados ilegais expõe falhas na fiscalização da publicidade e pode afetar a disputa eleitoral. Ela também defendeu transparência sobre todos os anúncios exibidos pela empresa, inclusive os que não são classificados pela plataforma como políticos.
Em resposta, a Meta afirmou que os anúncios analisados foram identificados e depois recategorizados ou removidos, quando aplicável, por violarem suas políticas. A empresa observou ainda que o estudo inclui campanhas veiculadas desde julho, antes do período oficial de campanha, e disse que seu processo de análise tem várias etapas de revisão e detecção antes e durante a exibição.
Os pesquisadores, por sua vez, consideram que corrigir a classificação ou retirar anúncios somente depois de sua veiculação revela limitações no controle da publicidade. Para eles, a verificação posterior não impede que conteúdos irregulares circulem antes de serem identificados.
Para entender
- NetLab
- Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A equipe pesquisa fenômenos ligados à internet e às plataformas digitais, como circulação de conteúdo e publicidade online.