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Sábado, 24 de outubro de 2026

Iphan suspende remoção de achados na futura estação 14 Bis-Saracura

A medida protege estruturas que podem pertencer a um terreiro de candomblé; a concessionária terá de apresentar um plano de musealização dos vestígios.

Por Redação Plantão Paulista 3 min de leitura
Imagem gerada por IA: Escavação arqueológica em obra da futura estação 14 Bis-Saracura, com estruturas e vestígios preservados. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Escavação arqueológica em obra da futura estação 14 Bis-Saracura, com estruturas e vestígios preservados.
Resumo em 30 segundos

O Iphan determinou a preservação integral de novos achados arqueológicos na área da futura estação 14 Bis-Saracura, na Linha 6-Laranja, em São Paulo, e suspendeu sua remoção. As estruturas podem estar ligadas a um antigo espaço de culto de matriz africana, mas essa identificação ainda é tratada como possibilidade. A concessionária deverá apresentar proposta de musealização.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) determinou nesta sexta-feira (23) a preservação integral de novos achados arqueológicos na área da futura estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja do metrô, no Bixiga, região central de São Paulo. A decisão também suspende a remoção de vestígios na área onde foram identificadas estruturas que podem pertencer a um antigo espaço de culto de matriz africana.

A determinação foi formalizada em ofício à Linha Uni, concessionária responsável pela obra, liderada pela empresa espanhola Acciona. A empresa deverá apresentar uma proposta para musealizar os achados. A incorporação das estruturas à estação ou sua retirada para remontagem em outro local dependerá de autorização do Iphan.

A suspensão foi decidida após uma reunião do instituto com o Ministério Público Federal. Em setembro, o Iphan havia permitido que os vestígios fossem removidos, desde que fossem registrados e tivessem amostras coletadas. A nova ordem interrompe esse procedimento na área das estruturas.

Os objetos foram descobertos em junho, durante o acompanhamento arqueológico da construção. Eles estavam em um cômodo a 2,2 metros de profundidade e incluem montes de anil, uma cavidade usada para depositar objetos, gravetos amarrados, ossos de animais, fragmento de ovo de galinha e uma conta de vidro verde.

Uma especialista em religiões afro-brasileiras que visitou o local avaliou que um martelo e um objeto semelhante a um prego, fixados no chão, podem remeter às divindades Ogum e Exu. O conjunto pode indicar um terreiro de candomblé, mas a identificação ainda é tratada como possibilidade. Os vestígios também podem ter relação com um quilombo que teria existido às margens do córrego Saracura Grande desde o século 19.

O anil é tradicionalmente empregado em práticas de purificação e proteção no candomblé. Já o feixe de gravetos pode ser um atori, vara sagrada utilizada em rituais. A preservação arqueológica busca proteger os vestígios e permitir que sejam estudados e apresentados ao público; a musealização pode envolver sua exposição no próprio local ou em outro espaço, conforme o projeto aprovado.

A Mobiliza Saracura/Vai-Vai defende há anos que o sítio seja incorporado à estação. O movimento afirma que a população deve ter acesso tanto ao transporte quanto à memória da região e reivindica a criação da primeira estação metroferroviária musealizada do Brasil. Até março de 2026, cerca de 110 mil peças haviam sido encontradas no sítio, entre fragmentos de metal, ossos e cerâmicas.

A área dos novos achados é chamada de “área 6” e, segundo a concessionária, é essencial para o avanço da construção. Em documento encaminhado ao Iphan em setembro, a Linha Uni afirmou que a sequência dos trabalhos depende da conclusão da pesquisa e da retirada das estruturas. A empresa justificou que mudar a ordem poderia elevar riscos de alagamento e instabilidade do terreno, além de afetar edificações e redes próximas.

A concessionária também havia se comprometido a realizar eventuais remoções com a presença de uma autoridade religiosa, para orientar a coleta, o armazenamento e a identificação dos materiais. A Linha Uni informou que acompanha as decisões do Iphan e que segue as determinações do órgão.

O instituto afirma que o Bixiga tem reconhecido potencial arqueológico e que a localização de vestígios durante uma obra de grande porte é uma possibilidade que deve ser considerada no planejamento. A estação 14 Bis-Saracura é a mais atrasada entre as obras da Linha 6-Laranja: no último balanço público da concessionária, tinha 15,55% dos trabalhos concluídos. O projeto prevê que a estação chegue a 38,33 metros de profundidade.

Para entender

Musealização
Processo de preservar e apresentar bens culturais ao público, por exemplo por meio de exposição e interpretação. No caso de um sítio arqueológico, a proposta pode prever a permanência dos vestígios no local ou sua apresentação em outro espaço, conforme as decisões e autorizações dos órgãos responsáveis.

Fontes: Folha de S.Paulo

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