Obras na Liberdade encontram vestígios do Cemitério dos Aflitos
Fragmentos de possível osso humano e uma concentração de cerâmica, vidro e ossos bovinos foram achados durante intervenções em ruas do bairro.
Resumo em 30 segundos
Achados arqueológicos foram registrados em 2026 durante obras da prefeitura em ruas da Liberdade, perto do antigo Cemitério dos Aflitos. Um fragmento pode ser parte de um fêmur; outra concentração reúne cerâmica, vidro e ossos bovinos. A identificação dos vestígios levou à paralisação de trechos das obras, que já estão atrasadas.
Fragmentos de um possível osso humano e uma concentração de cerâmica, vidro e ossos bovinos foram encontrados sob o pavimento de ruas da Liberdade, na região central de São Paulo, durante obras da prefeitura. Os achados, registrados neste ano dentro ou perto do perímetro do antigo Cemitério dos Aflitos, levaram à interrupção temporária de trechos dos trabalhos.
O fragmento humano foi identificado em 5 de outubro na rua Thomaz Gonzaga, próximo à esquina com a rua Galvão Bueno. Um parecer de especialista em bioarqueologia apontou que pode ser parte de um fêmur. A peça foi registrada e retirada para análise.
A outra concentração apareceu em junho, durante a abertura de uma vala na rua dos Estudantes, também perto da esquina com a Galvão Bueno. Os materiais estavam a cerca de 35 centímetros de profundidade. Cerâmica e vidro foram recolhidos, enquanto a parte óssea permaneceu no local e deverá ser escavada com mais cuidado.
A equipe cobriu a área com lona, areia, tapume de madeira e materiais de construção, além de isolá-la com tela. A concentração de fragmentos de louça, vidro e osso bovino pode estar relacionada a práticas religiosas de matriz afro-brasileira, segundo a empresa responsável pelo acompanhamento arqueológico.
O antigo Cemitério dos Aflitos recebeu sepultamentos de pessoas negras, indígenas, pobres e indigentes entre 1775 e 1858. Os vestígios recentes estavam a profundidade semelhante à de marcas de sepultamentos encontradas no entorno da Capela dos Aflitos em 2018. O cemitério é considerado um sítio arqueológico, área que preserva vestígios materiais de atividades e modos de vida do passado.
As descobertas ocorreram durante a segunda fase do programa Ruas Abertas, que prevê mudanças em cerca de 14 mil metros quadrados de vias comerciais e na praça da Liberdade. O projeto amplia calçadas, reduz áreas destinadas a carros, nivela a rua com o passeio e substitui asfalto por blocos intertravados, entre outras intervenções. O contrato é de R$ 5 milhões.
A prefeitura havia estimado a conclusão para o fim de 2025, mas ainda não divulgou uma nova data. A identificação dos vestígios e divergências de informações sobre o sistema de gás estão entre os fatores relacionados ao atraso. A gestão municipal afirmou que procura reduzir os impactos das obras com sinalização e desvios. Disse também que os trabalhos foram concluídos na rua Américo de Campos e na praça da Liberdade e continuam nas demais vias, com exceção da rua dos Estudantes, onde estão paralisados.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) afirmou que interrupções localizadas são adotadas quando surgem vestígios arqueológicos. Os itens são coletados e encaminhados para análise. O monitoramento da obra começou no fim de maio, depois do início dos trabalhos em 2025; o Iphan havia indicado a necessidade de acompanhamento em fevereiro daquele ano.
A associação Museu dos Aflitos encaminhou ao Iphan, em setembro, uma nota técnica que propõe ampliar os limites do sítio arqueológico e exigir acompanhamento especializado também em intervenções menores, como serviços de empresas de telecomunicações. Para a organização, os novos achados mostram que o subsolo conserva depósitos de relevância científica e cultural.
A atual etapa do programa sucede a primeira fase, implantada em 2023, que restringiu a circulação de automóveis em parte das vias aos domingos e feriados. O acompanhamento arqueológico das obras contará com especialista em bioarqueologia e diáspora africana e prevê participação de pessoas negras e indígenas.