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Sábado, 24 de outubro de 2026

Índia busca minerais críticos no Brasil e defende processamento local

O memorando firmado em fevereiro prevê cooperação, mas projetos dependem de novos acordos; o Brasil quer agregar valor à cadeia produtiva.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Profissionais analisam amostras de minerais em uma instalação de processamento industrial. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Profissionais analisam amostras de minerais em uma instalação de processamento industrial.
Resumo em 30 segundos

A Índia busca ampliar o acesso a minerais críticos brasileiros e propõe parcerias que incluam processamento e produção industrial. Um memorando assinado em fevereiro abriu caminho para a cooperação, mas não representa venda de terras raras. Investimentos e projetos específicos ainda dependem de acordos posteriores entre os países.

A Índia quer ampliar a cooperação com o Brasil para obter minerais críticos e desenvolver atividades de processamento e produção industrial. O tema ganhou espaço na relação entre os dois países após a assinatura, em fevereiro deste ano, de um memorando de entendimento sobre terras raras e minerais críticos, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Nova Déli.

O interesse indiano está ligado à busca por insumos para a indústria e à tentativa de reduzir a dependência da China. Lítio, níquel, cobalto e grafita são usados em baterias; terras raras entram na fabricação de motores elétricos e turbinas; e o cobre é empregado em redes de transmissão de energia. Esses materiais também são importantes para painéis solares, eletrônicos, equipamentos militares e semicondutores.

Em 2023, o governo indiano definiu uma lista de 30 minerais considerados essenciais para o futuro do país, incluindo lítio, níquel, cobalto, cobre, grafita, nióbio e elementos de terras raras. Minerais críticos são matérias-primas importantes para setores industriais e cuja oferta pode estar sujeita a riscos, como a concentração da produção ou restrições de exportação.

A Índia tem reservas de alguns desses recursos, mas depende de fornecedores estrangeiros para etapas relevantes de suas cadeias produtivas. A China ocupa posição central nesse mercado: segundo dados do governo indiano, produz cerca de 60% das terras raras do mundo e responde por 85% do processamento. Refino e separação transformam o minério extraído em materiais que podem ser usados na produção de baterias, motores e celulares.

Keshav Chandra, secretário do Ministério de Minas da Índia, afirmou que o país busca fortalecer relações com a América do Sul. “Hoje há uma mudança clara em direção aos países da América do Sul”, disse. Para ele, a região é importante por concentrar grandes reservas de minerais críticos.

A preocupação com o abastecimento aumentou diante dos controles chineses sobre exportações e tecnologias de processamento. Em 2025, o governo indiano criou a Missão Nacional de Minerais Críticos, um plano para organizar a busca por jazidas, a abertura de minas, o processamento, o desenvolvimento tecnológico e a aquisição de ativos no exterior.

O Serviço Geológico da Índia pretende realizar 1.200 projetos de pesquisa mineral até 2031. O plano prevê mobilizar cerca de US$ 4 bilhões em investimentos para assegurar ao menos 50 ativos minerais fora do país. O governo também centralizou leilões de áreas para 24 substâncias, após mudanças legais que facilitaram a participação privada na exploração.

A estatal Kabil, criada para buscar minerais estratégicos no exterior, já avançou em áreas de lítio na Argentina. O Brasil é apontado como possível destino da estratégia indiana por liderar as reservas mundiais de nióbio e estar entre os países com maiores jazidas de grafita, níquel, lítio e terras raras.

Além do memorando sobre minerais, Brasil e Índia assinaram em fevereiro um acordo voltado à mineração para a cadeia de suprimentos do aço. Chandra disse que o entendimento sobre minerais deve avançar para investimentos, transferência de tecnologia e parcerias em áreas específicas. O secretário afirmou que possuir níquel, lítio ou cobalto não basta sem capacidade para fabricar produtos, como baterias.

O ponto central das negociações é o grau de processamento que ficará no Brasil. O país busca evitar que sua participação se limite à extração e à exportação de minério. Vaishali Sahni, diretor da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia e líder do Grupo de Trabalho de Comércio do Brics, afirmou que os investimentos pretendem agregar valor localmente e processar os minerais em parceria com o Brasil.

O memorando não significa, por si só, que terras raras brasileiras tenham sido vendidas. O documento estabelece cooperação entre os governos, enquanto investimentos e projetos específicos dependem de acordos posteriores. A discussão envolve tanto o acesso às matérias-primas quanto a possibilidade de desenvolver etapas industriais no país.

A aproximação mineral integra uma agenda econômica mais ampla. Brasil e Índia têm cooperação em etanol desde 2002, quando firmaram um acordo sobre tecnologia para misturar o combustível à gasolina; uma parceria mais abrangente em bioenergia foi estabelecida em 2020. Em 2023, os dois países e os Estados Unidos lideraram a criação da Aliança Global de Biocombustíveis, lançada durante o G20 em Nova Déli.

Também em fevereiro, a fabricante brasileira Embraer e a indiana Adani Defence & Aerospace anunciaram planos para instalar na Índia uma linha de montagem final do jato regional E175. O projeto prevê uma cadeia de fabricação, fornecedores, serviços pós-venda e treinamento de pilotos. Nos minerais, como em outros setores, a disputa de interesses passa por saber se a relação comercial também produzirá tecnologia e capacidade industrial nos países envolvidos.

Fontes: Folha de S.Paulo, Estadão

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