Joseph Stiglitz vê riscos econômicos em eventual governo de Flávio
Em entrevista após o primeiro turno, o Nobel de Economia de 2001 afirma que cortes de gastos e impostos podem reduzir o PIB e ampliar a desigualdade.
Resumo em 30 segundos
Joseph Stiglitz avalia que as propostas de corte de gastos públicos e redução de impostos para os mais ricos podem contrair a economia brasileira e aumentar a desigualdade. O economista também alerta para impactos duradouros de cortes em educação, infraestrutura e tecnologia e critica a visão imediatista dos mercados.
Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel de Economia de 2001, afirmou que uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro representaria riscos para a economia brasileira no curto e no longo prazo. Em entrevista na semana seguinte ao primeiro turno, o economista disse que as propostas de austeridade fiscal do candidato poderiam reduzir o Produto Interno Bruto (PIB), ampliar a desigualdade e comprometer investimentos públicos.
Flávio terminou o primeiro turno com 1,87 ponto percentual de vantagem, e a reação dos mercados foi positiva: o dólar caiu para R$ 5 e a Bolsa chegou a 206 mil pontos. Stiglitz ponderou que essa resposta reflete uma visão imediata sobre a expectativa de impostos menores e de um ambiente mais favorável às empresas, mas não considera os efeitos de uma economia em retração.
O economista avaliou que o programa de Flávio ainda é vago, mas apontou duas medidas mencionadas pelo candidato: corte de despesas públicas e redução de impostos para os mais ricos. Na avaliação de Stiglitz, se as duas ações forem implementadas ao mesmo tempo, a atividade econômica cairá. Trabalhadores e famílias de renda média e baixa seriam os mais afetados, disse.
Stiglitz afirmou que Flávio prometeu preservar as aposentadorias. Por isso, segundo o economista, os cortes poderiam atingir com mais força programas discricionários, como os voltados à educação e a outras políticas para pessoas pobres e de classe média. Ele também alertou que a redução de investimentos em educação, infraestrutura e tecnologia teria consequências duradouras para o desenvolvimento do país.
No curto prazo, a diminuição de gastos e tributos poderia contrair o PIB, afirmou Stiglitz. No longo prazo, cortes em investimentos públicos diminuiriam a capacidade do Brasil de crescer e de se aproximar das economias desenvolvidas. O economista disse que os efeitos dessas decisões podem demorar a aparecer, o que faria com que fossem menos perceptíveis no debate imediato.
A análise de Stiglitz contrasta com o entusiasmo observado no mercado após o resultado do primeiro turno. Para ele, uma economia em recessão não é necessariamente boa para as empresas, mesmo quando os impostos são menores. Também não é, afirmou, um ambiente favorável aos negócios aquele que deixa de fazer investimentos básicos em infraestrutura, tecnologia e formação educacional.
O economista disse ainda que o Brasil registra superávit primário, mas enfrenta um déficit associado às taxas de juros elevadas. O superávit primário ocorre quando as receitas do governo superam as despesas, antes do pagamento dos juros da dívida. Stiglitz afirmou que o custo dos juros pesa sobre as contas e defendeu uma economia mais competitiva, com salários robustos, juros menores e um sistema financeiro que funcione melhor.
Stiglitz também se referiu ao governo Lula ao comparar o desempenho econômico recente com as expectativas do mercado. “Lula foi realmente muito bom para os mercados. Para qualquer pessoa que observe resultados concretos, essa é uma grande conquista”, afirmou. Ele criticou a tendência de investidores de priorizar efeitos imediatos, como reduções de impostos, em vez de considerar o impacto de longo prazo sobre a capacidade produtiva.
Além dos efeitos econômicos, o economista citou riscos políticos em caso de vitória de Flávio, incluindo um possível enfraquecimento da democracia. Antes do primeiro turno, ele assinou com outros intelectuais um texto publicado no jornal francês Le Monde que apontava o candidato como uma ameaça democrática.
A entrevista também abordou as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil no ano passado. Stiglitz classificou como ilegal a tarifa adicional e disse que associá-la à interrupção do processo contra Jair Bolsonaro pelo 8 de janeiro faria parte de uma estratégia de pressão autoritária. Na avaliação dele, a interferência dos Estados Unidos em outros países deveria provocar reação no Brasil.
O economista afirmou que o Brasil depende mais da China do que dos Estados Unidos e disse que o país poderia sofrer pressão para aderir à hostilidade americana contra Pequim. Ele observou que metade das exportações brasileiras para os Estados Unidos ficou isenta das tarifas, em parte por envolver produtos necessários ao mercado americano, como carne, laranja e café. Para Stiglitz, apostar no presidente Donald Trump seria um erro.
Nascido em Gary, no estado americano de Indiana, Stiglitz recebeu o Nobel de Economia em 2001, ao lado de George Akerlof e Michael Spence, por trabalhos sobre informação assimétrica. O conceito descreve situações em que participantes de uma transação têm acesso a informações diferentes, o que ajuda a explicar por que os mercados nem sempre se corrigem sozinhos. Ele foi economista-chefe do Banco Mundial entre 1997 e 2000 e chefiou a equipe econômica do governo Bill Clinton de 1995 a 1997.
Professor de administração e negócios na Universidade Columbia, em Nova York, Stiglitz é crítico da desregulamentação dos mercados e da austeridade fiscal. Entre seus livros estão “A Globalização e seus Malefícios” e “O Preço da Desigualdade”, obra em que discute as consequências econômicas e sociais da concentração de renda.