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Sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Imprensa chinesa vê Lula como favorito e prevê laços estáveis

Veículos chineses destacam Lula e Flávio Bolsonaro como favoritos e avaliam que os interesses comerciais devem preservar os laços entre Brasil e China.

Por Felipe Rocha 4 min de leitura
Navio cargueiro em um porto brasileiro, com contêineres e equipamentos de carga ao fundo. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Navio cargueiro em um porto brasileiro, com contêineres e equipamentos de carga ao fundo.
Resumo em 30 segundos

A imprensa chinesa acompanha a eleição presidencial brasileira como uma disputa aberta entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas, segundo a analista Kerry Allen, demonstra preferência por Lula. Veículos locais avaliam que a dependência comercial brasileira e os investimentos chineses tendem a manter os laços bilaterais, mesmo em caso de vitória da direita.

A imprensa chinesa acompanha a eleição presidencial brasileira de domingo (4) como uma disputa aberta entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), mas demonstra preferência por Lula e expectativa de que os vínculos entre os dois países continuem, independentemente do resultado. A cobertura também examina os efeitos de uma eventual vitória da direita sobre a relação de Brasília com Pequim.

A análise dos veículos locais, em grande parte controlados pelo Estado, reflete o interesse do governo chinês no processo eleitoral, segundo Kerry Allen, analista de mídia da China do BBC Monitoring. Ela avalia que a cobertura indica uma inclinação favorável a Lula, enquanto evita críticas diretas a Flávio Bolsonaro para não antagonizar um possível futuro governo.

“Eu diria que, se há um candidato preferido da China, é Lula”, afirmou Allen. Ela disse que publicações chinesas ressaltam a influência política do presidente, sua base de apoio, experiência de governo e imagem internacional. Também apontam como vantagem a aproximação com eleitores moderados e de centro, além de políticas sociais e de emprego.

O Global Times, um dos veículos chineses mais influentes em assuntos internacionais, descreveu a eleição como capaz de afetar a política brasileira e a região. O jornal apresenta os dois candidatos em condições semelhantes, embora associe Lula à distribuição de renda e Flávio a eleitores preocupados com segurança.

A publicação também aponta fatores que podem prejudicar Lula, entre eles a idade, questões de saúde e dificuldades para convencer eleitores de centro de que haverá uma recuperação econômica forte. O jornal afirma que Flávio Bolsonaro herda parte da base de seu pai, Jair Bolsonaro, incluindo eleitores conservadores, grupos ligados ao agronegócio e apoiadores de políticas de segurança mais rígidas.

Na avaliação do Global Times, as preocupações cotidianas —como segurança nos bairros, custo de alimentos e combustíveis, empregos para jovens e mobilidade social— podem ser mais decisivas do que a divisão entre esquerda e direita. O jornal considera que Lula tem maior apelo se prevalecerem temas como renda e proteção social, enquanto a direita pode mobilizar eleitores que priorizam o combate ao crime e a ordem pública.

Outro eixo da cobertura é a possibilidade de uma mudança nas relações entre Brasil e China caso Flávio vença. A preocupação decorre de sua proximidade com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, país visto por Pequim como rival. Ainda assim, Allen afirma que a imprensa chinesa registra declarações de Flávio segundo as quais as relações comerciais e econômicas com a China não seriam alteradas.

Um texto do portal NetEase argumenta que os interesses econômicos brasileiros limitariam qualquer afastamento. A publicação sustenta que o mercado chinês é essencial para as exportações de produtos primários e menciona governadores de estados agrícolas e integrantes da bancada ruralista como defensores do comércio bilateral.

O portal também cita investimentos chineses no Brasil, como linhas de transmissão da State Grid e a instalação de montadoras como BYD e GWM. Em contraste, a publicação afirma que os Estados Unidos oferecem a Brasília principalmente propostas políticas e de segurança, sem recursos concretos comparáveis. A reportagem usa ainda a saída da Ford de Camaçari, na Bahia, e a chegada posterior da BYD para ilustrar seu argumento.

A análise da NetEase recorda que Jair Bolsonaro, ao assumir a Presidência em 2018, adotou inicialmente uma postura crítica à China, mas depois liderou uma delegação brasileira ao país e enfatizou a parceria estratégica. O texto interpreta essa mudança como sinal de que políticos de direita aprenderam a agir de forma pragmática diante da importância econômica chinesa.

A China Newsweek, por sua vez, destacou a soberania brasileira diante de pressões externas. A revista relacionou declarações de Lula sobre impedir que forças estrangeiras cruzem a fronteira e levem um presidente à situação na Venezuela, embora o nome de Nicolás Maduro não tenha sido citado na fala reproduzida.

O interesse chinês no Brasil também está ligado ao peso do país como parceiro comercial, fornecedor agrícola e integrante dos Brics. Allen afirmou que Xi Jinping costuma incluir o Brasil na chamada “diplomacia de grandes países”, expressão usada por Pequim para tratar de nações consideradas influentes e de grande porte.

A imprensa chinesa opera em um ambiente de forte controle estatal. A organização Repórteres Sem Fronteiras colocou o país entre os três últimos no ranking mundial de liberdade de imprensa de 2026, à frente apenas da Eritreia e da Coreia do Norte. A entidade também informa que mais de 100 jornalistas estão presos na China.

Apesar da preferência identificada por Allen, a expectativa expressa em parte da cobertura é de continuidade nas relações bilaterais. “Acho que, em linhas gerais, a China espera que, independentemente de quem assumir o poder, as relações positivas sejam mantidas”, afirmou a analista. A eleição brasileira, portanto, é observada em Pequim tanto pelo resultado político quanto pelas consequências econômicas e diplomáticas para a parceria entre os países.

Quem é quem

Lula
Luiz Inácio Lula da Silva é um político brasileiro do Partido dos Trabalhadores. Foi presidente do Brasil de 2003 a 2010 e voltou ao cargo após vencer a eleição de 2022. Sua trajetória política e a atuação em políticas sociais são frequentemente abordadas na cobertura sobre a política brasileira.
Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro é um político brasileiro do Partido Liberal e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foi eleito senador pelo Rio de Janeiro em 2018. A cobertura eleitoral citada o apresenta como um dos principais candidatos à Presidência do Brasil.
Global Times
O Global Times é um jornal chinês publicado em inglês e chinês, ligado ao Diário do Povo, veículo do Partido Comunista Chinês. É conhecido por cobrir política internacional e temas de interesse do governo chinês, embora publique reportagens e comentários próprios.

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