EUA elevam projeção de aquecimento ao deixar Acordo de Paris
Relatório da ONU estima que o planeta pode aquecer 2,6°C neste século se os países cumprirem seus compromissos, 0,3°C acima da previsão anterior.
Resumo em 30 segundos
A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e mudanças nas políticas climáticas contribuíram para elevar a projeção de aquecimento global neste século, segundo relatório da ONU. A estimativa chega a 2,6°C caso os países cumpram seus compromissos. O documento também aponta aumento das emissões americanas e pede cortes globais mais rápidos.
Os Estados Unidos deixaram o Acordo de Paris após o presidente Donald Trump anunciar a retirada do país no dia em que tomou posse, em janeiro de 2025. A decisão, somada à reversão de políticas climáticas, contribuiu para elevar a estimativa de aquecimento global neste século, segundo um relatório das Nações Unidas divulgado no mês passado.
O Acordo de Paris é um pacto internacional para conter a mudança climática. Seu objetivo é limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Pelo acordo, os países devem atualizar e fortalecer a cada cinco anos seus compromissos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que retêm calor na atmosfera.
O relatório anual da ONU sobre a lacuna de emissões estima que, se os países cumprirem os compromissos assumidos, o planeta poderá aquecer 2,6°C até o fim do século. A projeção é 0,3°C maior que uma estimativa comparável feita no ano anterior. Cerca de metade desse aumento é atribuída à retirada do compromisso climático dos Estados Unidos.
A estimativa depende de várias premissas, inclusive a de que as políticas adotadas pelo governo Trump continuem em vigor muito depois do término de seu mandato. O documento também calcula que mudanças recentes nas políticas americanas podem acrescentar 0,9 gigatonelada de emissões até 2030 — volume equivalente às emissões anuais do Japão.
A ONU apontou os Estados Unidos como exceção entre os países industrializados do G20. Em 2025, o crescimento das emissões desacelerou em geral nesse grupo, mas não no mesmo ritmo nos EUA. O relatório relaciona o aumento americano à maior demanda por eletricidade, impulsionada pela rápida construção de centros de processamento de dados para inteligência artificial, e ao inverno rigoroso na América do Norte, que elevou o uso de combustíveis fósseis para aquecimento.
Desde que voltou ao poder, em janeiro de 2025, Trump também retirou apoio federal às energias eólica e solar, eliminou limites às emissões de usinas movidas a combustíveis fósseis e revogou uma conclusão científica que dava ao governo autoridade para combater a mudança climática. A queima de carvão, petróleo e gás libera gases de efeito estufa.
A porta-voz da Casa Branca Taylor Rogers contestou as conclusões e disse que as Nações Unidas estavam “promovendo a farsa woke da energia verde e pressionando países do mundo inteiro a pôr em risco sua segurança econômica e nacional para cumprir metas climáticas arbitrárias”. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que os governos precisam acelerar a expansão das energias renováveis e reduzir gradualmente o uso de combustíveis fósseis. Ele descreveu o cenário como uma “lacuna de liderança”.
A diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Inger Andersen, disse que os impactos da mudança climática já são sentidos e continuarão a afetar todos os países, inclusive os Estados Unidos. Cientistas alertam que cada fração adicional de aquecimento aumenta a possibilidade de ondas de calor mais letais, tempestades mais intensas e outros eventos extremos.
A saída dos EUA ocorre apesar de o país ter assumido, em 2024, durante o governo de Joe Biden, um compromisso de redução de emissões. O relatório observa que o mundo já caminhava para ultrapassar a meta de 1,5°C antes da mudança de política americana. As temperaturas médias globais já subiram 1,4°C em relação ao período pré-industrial, e a ONU reconheceu formalmente no mês anterior que a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C será ultrapassada.
Para reduzir ao mínimo o período acima desse patamar e manter a possibilidade de voltar a temperaturas próximas dele até o fim do século, as emissões globais teriam de cair 45% até 2035, segundo a avaliação da ONU. A entidade compara o ritmo necessário à queda registrada em 2020, quando a pandemia de coronavírus paralisou parte considerável da atividade econômica.