Construção civil perde ritmo, mas infraestrutura sustenta empregos
A Cbic projeta alta de 1,2% no PIB do setor em 2026; juros e custos elevados pesam sobre empresas e compradores de imóveis.
Resumo em 30 segundos
A construção civil desacelerou no terceiro trimestre, pressionada pelos juros altos e pela elevação dos custos, mas a infraestrutura ajudou a manter a geração de empregos formais. A Cbic prevê crescimento de 1,2% para o PIB do setor em 2026. Juros, endividamento das famílias, falta de mão de obra e adaptação à reforma tributária estão entre os desafios para 2027.
A construção civil perdeu ritmo no terceiro trimestre de 2026, em comparação com os três meses anteriores e com o mesmo período de 2025, pressionada pelos juros altos e pela elevação dos custos. A expansão de obras de infraestrutura, porém, sustentou a geração de empregos formais, informou nesta quinta-feira (29) a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), ao divulgar um relatório sobre o setor.
A Cbic projeta crescimento de 1,2% para o Produto Interno Bruto (PIB) da construção em 2026. A previsão considera o desempenho do primeiro semestre e a atividade em projetos de infraestrutura. Para 2027, a entidade avalia que uma aceleração mais consistente dependerá da queda dos juros e da redução da pressão sobre os custos.
A taxa de juros foi citada por 40% dos empresários consultados como o principal problema do setor. Segundo a Cbic, é a maior proporção desde o terceiro trimestre de 2023. Crédito mais caro, endividamento das famílias e insumos em alta dificultam o planejamento das empresas e limitam tanto a produção quanto a compra de imóveis.
“O que a construção espera, e a gente apresentou isso para todas as candidaturas, é que haja um cuidado com as contas públicas que possibilite a queda dessa taxa de juros, que impacta não só a produção nem só a venda, mas o consumo das famílias”, afirmou Eduardo Aroeira, presidente da Cbic. Ele disse que os juros elevados afetam diferentes etapas do negócio da construção.
Os custos também avançaram. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), acumulou alta de 6,64% nos 12 meses encerrados em setembro, acima da inflação oficial, de 4,58% no mesmo intervalo. A mão de obra subiu 7,78%, enquanto materiais e equipamentos ficaram 6,06% mais caros.
Apesar da desaceleração da atividade, a construção tinha 3,15 milhões de trabalhadores com carteira assinada em agosto, o maior total desde o início da série do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em janeiro de 2020. O contingente foi 3% maior que o de agosto de 2025. Entre janeiro e agosto, o setor abriu 200.431 vagas formais.
As obras de infraestrutura responderam por 79.065 desses postos, alta de 26,89% ante o mesmo período do ano passado, quando foram criadas 62.312 vagas. O resultado superou o da construção de edifícios. Segundo Ieda Vasconcelos, economista-chefe da Cbic, a contratação reflete projetos de leilões e concessões realizados nos últimos anos e investimentos privados em empreendimentos industriais e de energia.
A expansão tem ocorrido sobretudo no interior, com obras de energia renovável, linhas de transmissão e fábricas de celulose. Na capital paulista, os serviços especializados representaram 59,32% das novas vagas da construção nos oito primeiros meses do ano. Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte e Salvador também ficaram entre as cidades que mais criaram empregos no setor.
Vasconcelos afirmou que a infraestrutura atravessa um ciclo de expansão de longo prazo e que o mercado imobiliário também deve manter atividade em 2027, apoiado por unidades lançadas no ano passado e neste ano. A preocupação da entidade está principalmente no segmento imobiliário, afetado pelos juros e pelo endividamento das famílias. A escassez de mão de obra e a adaptação à reforma tributária também estão entre os desafios apontados para o próximo ano.
Aroeira disse que a reforma exigirá a emissão de notas fiscais para a venda de imóveis, procedimento que, segundo ele, não era feito pelo setor, e afirmou que ainda há definições pendentes sobre o processo. A entidade considera que a implementação da nova regra pode exigir ajustes das empresas.
Para entender
- INCC
- O Índice Nacional de Custo da Construção acompanha a variação dos custos de materiais, serviços e mão de obra usados na construção civil. Calculado pela Fundação Getulio Vargas, é uma das referências para observar a evolução dos custos do setor.
- Novo Caged
- O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados reúne informações administrativas sobre admissões e desligamentos com carteira assinada no Brasil. Os dados permitem acompanhar a criação e a perda de empregos formais por setor e localidade.