Araponga e seriema estão entre as aves com cantos mais altos
Em medições ajustadas para um metro, a araponga atingiu 122,4 decibéis e a seriema, 121,2; a posição varia conforme o critério.
Resumo em 30 segundos
Um estudo publicado na revista Evolution comparou a amplitude vocal de 123 aves. A araponga e a seriema-de-perna-vermelha estão entre as espécies com cantos mais intensos, em medições padronizadas para um metro. A pesquisa também identificou a araponga-da-amazônia entre as aves praticamente empatadas no topo do ranking.
A araponga (Procnias nudicollis) e a seriema-de-perna-vermelha (Cariama cristata) estão entre as aves com os cantos mais altos já medidos, segundo estudo publicado no fim de setembro na revista científica Evolution. Em medições padronizadas para um metro de distância, a araponga alcançou 122,4 decibéis (dB), e a seriema, 121,2 dB — volumes comparáveis aos de uma britadeira ou motosserra.
Uma terceira espécie brasileira, a araponga-da-amazônia (Procnias albus), também chegou a 121,2 dB em registros anteriores. O estudo considera as três espécies praticamente empatadas, pois a posição no ranking depende de como se comparam os resultados: o maior canto individual favorece a araponga, enquanto as médias dos máximos podem destacar a seriema ou a araponga-da-amazônia.
A diferença entre as medidas máximas e as médias é importante porque cada ave pode produzir chamados de intensidades variadas. O artigo analisou a amplitude sonora, uma característica da onda que contribui para o volume e influencia a distância que o som pode percorrer. Os pesquisadores compararam os registros após padronizá-los para a mesma distância, o que permite avaliar espécies diferentes em condições equivalentes.
A pesquisa reuniu medições de 123 aves e foi descrita como a maior comparação da amplitude vocal entre espécies. Os pesquisadores começaram o trabalho em Massachusetts, nos Estados Unidos, e depois vieram ao Brasil, onde encontraram maior diversidade de aves. Entre as gravações brasileiras, os chamados da araponga foram registrados no Vale do Ribeira, na região metropolitana de São Paulo e na serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, em 2023 e 2024.
Já os registros da seriema usados no estudo foram feitos em Ibiúna, a 69 quilômetros da capital paulista, em 2024. A espécie vive no cerrado e também pode ser encontrada em áreas alteradas pela atividade humana, como plantações e pastagens. A araponga, por sua vez, habita a Mata Atlântica, sobretudo trechos bem preservados.
Para medir o som no ambiente natural, a equipe usou um telêmetro a laser, que permite determinar a distância da ave, e um medidor de nível sonoro, que ajuda a identificar e isolar o chamado em meio ao ruído de fundo e às vocalizações de outros animais. A combinação é necessária porque a intensidade registrada depende da distância entre a fonte sonora e o equipamento.
Os pesquisadores relacionaram a potência dos cantos a características do corpo das aves. A siringe, órgão vocal das aves, recebe o ar dos pulmões e o direciona para a traqueia; sua estrutura ajuda a concentrar a energia do som em determinadas frequências, favorecendo picos de volume. A largura do bico também pode contribuir para projetar o som, de modo semelhante à campana de um instrumento de metal.
O tamanho do corpo é outro fator associado à intensidade. Aves maiores tendem a ter músculos mais robustos, capazes de gerar maior pressão de ar, que participa da produção de sons altos. A araponga chama atenção justamente por reunir uma vocalização muito intensa em um corpo pequeno.
No outro extremo das medições, os cantos mais suaves foram os dos beija-flores, que chegaram a cerca de 50 dB, nível comparável ao de uma chuva moderada. O estudo destaca que ainda é difícil medir a amplitude de vocalizações em campo: é preciso localizar a ave responsável pelo som e saber com precisão a distância até ela. Os pesquisadores afirmam que esses desafios tornam as medições diretas pouco comuns e deixam espaço para novas comparações entre espécies.