Macacos-japoneses evitam mais alimentos após surto de doença no Texas
Mesmo sem o vírus ser transmitido por comida, os animais expostos ao surto comeram menos vezes o alimento sobre fezes do que macacos sem contato com a doença.
Resumo em 30 segundos
Após um surto de doença em um santuário no sul do Texas, macacos-japoneses passaram a evitar com mais frequência alimentos colocados sobre fezes. Eles escolheram essa opção em 47% dos testes, contra 79% entre animais sem contato com o surto. A cautela também apareceu em macacos que conviveram com animais doentes, mas não foram infectados.
Macacos-japoneses que passaram por um surto de doença em um santuário no sul do Texas ficaram mais cautelosos ao escolher alimentos, segundo um estudo publicado neste mês. A pesquisa, da qual Federico Rossano, diretor do Laboratório de Cognição Comparada da Universidade da Califórnia em San Diego, é um dos autores, indica que a experiência de conviver com animais doentes pode influenciar a prevenção de riscos e ser compartilhada socialmente.
O surto ocorreu no início de 2020 e foi provocado por um vírus semelhante ao HIV, transmitido por mordidas e arranhões. A doença se espalhou por três dos quatro grupos do santuário. Funcionários separaram e testaram os animais, além de isolar os infectados; alguns morreram rapidamente, com hemorragias graves, enquanto outros adoeceram de forma gradual.
Depois que a ameaça passou, os pesquisadores ofereceram aos macacos dois pedaços de alimento: um sobre uma superfície limpa e outro sobre uma placa coberta por fezes de macaco. O material foi selado com epóxi para retirar o odor e eliminar qualquer risco real de contaminação. Fezes não afastam necessariamente os macacos, mas os animais que haviam vivido o surto foram mais seletivos diante da opção potencialmente contaminada.
Eles comeram o alimento colocado sobre as fezes em 47% dos testes. Entre os macacos que não tiveram contato com o surto, a proporção foi de 79%. A diferença apareceu mesmo que a doença observada no santuário não fosse transmitida por alimentos.
“De alguma forma, eles estão se adaptando a um risco potencial que percebem”, afirmou Rossano. Stephan Kaufhold, pesquisador em ciência cognitiva e também autor do estudo, disse que os animais parecem ter ampliado a sensibilidade a possíveis ameaças depois de observar a doença, embora a contaminação dos alimentos não fosse uma via de transmissão do vírus.
A cautela também foi observada em macacos que não adoeceram, mas conviveram com animais infectados. Para Rossano, esses indivíduos se comportaram da mesma maneira que os que foram diretamente afetados pelo surto. O resultado sugere que a exposição a sinais de doença pode alterar o comportamento mesmo sem infecção.
Os pesquisadores chamam esse tipo de resposta de sistema imunológico comportamental: estratégias que ajudam a evitar enfermidades antes que o organismo seja infectado. A cautela pode ser aprendida por observação e não se limita a reconhecer uma forma específica de transmissão. No experimento, os macacos passaram a evitar uma fonte de alimento associada a um risco, apesar de o vírus ter se espalhado por mordidas e arranhões.
A pesquisa também identificou diferenças ligadas à história de vida dos animais. Macacos criados por humanos tiveram maior probabilidade de comer o alimento sobre as fezes. Uma possível explicação é que eles tiveram menos oportunidades, quando jovens, de aprender com as mães ou com outros macacos a evitar fontes potencialmente contaminadas.
A primatóloga Elodie Freymann, da Universidade Brown, que não participou do estudo, afirmou que pesquisas com primatas precisam considerar as origens e experiências dos animais. O santuário reunia macacos nascidos no local, em zoológicos, além de antigos animais de laboratório e ex-animais de estimação. Para Freymann, levar essas trajetórias em conta ajuda a interpretar diferenças de comportamento.
Para entender
- Sistema imunológico comportamental
- É o conjunto de estratégias de comportamento que pode ajudar um animal a evitar doenças antes de ser infectado. Inclui respostas como evitar indivíduos doentes ou fontes percebidas como contaminadas, sem depender da ação do sistema imunológico do organismo.