Valuation de empresas de tecnologia cai no Brasil desde 2021
Estudo com 30 operações aponta que o múltiplo mediano de receita caiu de sete para quatro vezes entre 2020 e 2026, em meio à mudança no foco dos investidores.
Resumo em 30 segundos
A mediana do múltiplo de receita pago em aquisições de empresas brasileiras de tecnologia caiu de sete vezes, em 2020 e 2021, para quatro vezes entre 2024 e 2026. O estudo analisou 30 operações, que movimentaram R$ 3 bilhões. O earn-out apareceu em 64% dos negócios, mas sua parcela média do valor diminuiu.
A mediana do múltiplo de receita pago em aquisições de empresas de tecnologia brasileiras caiu de sete vezes, entre 2020 e 2021, para quatro vezes no período de 2024 a 2026. Os dados fazem parte de um estudo sobre operações de fusões e aquisições no setor, que movimentaram R$ 3 bilhões no Brasil e foram analisadas por Ártica, BZCP Advogados e Insper.
O múltiplo de receita compara o preço pago por uma empresa com o faturamento anual que ela gera. Assim, uma relação de sete vezes indica que o comprador pagou o equivalente a sete anos de receita anual; com o indicador em quatro vezes, os investidores passaram a desembolsar menos por empresas com faturamento semelhante. O valuation é o valor atribuído a uma companhia em uma negociação e pode levar em conta, além da receita, as perspectivas de crescimento e a geração futura de caixa.
O estudo reuniu 30 operações em que empresas de tecnologia foram vendidas total ou parcialmente. Para Marcelo Shima, sócio do BZCP, a queda nos múltiplos sinaliza o fim de um ciclo de forte procura por software como serviço, conhecido pela sigla SaaS. “O mercado de software as a service (Saas) foi muito procurado entre 2018 e 2023. Com o nascimento de um novo ciclo, o da inteligência artificial, nós vemos o capital migrando para essa onda”, disse.
A expansão do setor também aparece na participação da tecnologia nas transações privadas no país. Dados da S&P Capital IQ analisados pela Ártica mostram que a fatia passou de 10% em 2006 para 25% em 2025. No ano passado, tecnologia da informação foi o setor com maior número de operações.
A professora do Insper Andreia Minardi, que participou do estudo, afirmou que reunir informações sobre essas negociações é relevante porque a venda costuma ser uma oportunidade rara na trajetória de um empreendedor e uma das principais formas de saída para investidores de venture capital. Mais de 80% das saídas de empresas investidas por esses fundos ocorrem por meio de operações desse tipo, segundo o estudo.
As transações de tecnologia têm características próprias. Fundadores, muitas vezes mais jovens, costumam conduzir diretamente a venda, enquanto a integração após a aquisição pode exigir atenção a profissionais especializados, ferramentas específicas e culturas organizacionais diferentes. Esses fatores podem tornar o processo de incorporação mais complexo e caro.
Outro mecanismo usado é o earn-out, pelo qual uma parte do pagamento depende do desempenho futuro da empresa. Ele apareceu em 64% das operações analisadas. A parcela do valor paga nesse formato caiu de 29% nas transações de 2020 e 2021 para 17% entre 2024 e 2026.
Lincoln Shiroma, sócio da Ártica, apontou como possível explicação as disputas sobre metas e parcelas variáveis. O earn-out pode incentivar o fundador a permanecer na companhia e contribuir para a integração, mas, depois da venda, ele deixa de controlar todos os fatores que influenciam o cumprimento dos objetivos estabelecidos.