Aplicativo Root vira destino de grupos extremistas após restrições ao Discord
Um adolescente de 15 anos foi apreendido no Espírito Santo após agressões transmitidas pelo serviço; investigadores dizem que centenas acompanharam a live.
Resumo em 30 segundos
Grupos extremistas passaram a usar o aplicativo Root após restrições às transmissões ao vivo do Discord. No Espírito Santo, investigadores relacionam o serviço a uma transmissão de agressões contra uma adolescente, acompanhada por centenas de pessoas. O Ciberlab busca cooperação com os responsáveis pelo aplicativo para facilitar investigações e proteger crianças e adolescentes.
Grupos extremistas passaram a usar o aplicativo Root e outros serviços menores para manter atividades violentas após a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinar que o Discord suspendesse seu sistema de transmissões ao vivo criptografadas. Investigadores identificaram a migração, que acompanha uma dinâmica recorrente: quando aumenta a fiscalização de uma plataforma, os grupos procuram outras formas de escapar do monitoramento.
Um caso envolvendo o Root foi descoberto no Espírito Santo. Um adolescente de 15 anos foi apreendido em 8 de outubro, sob suspeita de estuprar e torturar a namorada, de 14 anos, em Vila Velha. As agressões foram transmitidas ao vivo pelo aplicativo para centenas de jovens, segundo a investigação.
O Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), ligado ao Ministério da Justiça, identificou o caso e encaminhou um relatório de inteligência à Polícia Civil capixaba. Em coletiva na semana passada, investigadores disseram que os adolescentes envolvidos se conheceram por um aplicativo de mensagens. A polícia ainda tenta identificar outros integrantes do grupo.
Segundo o delegado Brenno Andrade, sete pessoas ocupavam posições de comando durante a transmissão, que foi acompanhada em tempo real por outras 300. A maioria dos envolvidos é menor de idade. O adolescente apreendido confirmou os atos na delegacia e disse ter cogitado matar a namorada. A motivação seria uma suposta traição com outros integrantes da “panela”, nome usado para chats fechados de grupos extremistas, geralmente organizados com hierarquia interna.
O Root foi lançado no ano passado e tem alcance bem menor que o Discord: foi baixado cerca de 100 mil vezes na loja do Google, enquanto o Discord supera 500 milhões de downloads. Pesquisadores avaliam que a menor popularidade e o monitoramento mais limitado podem ter facilitado a entrada de grupos extremistas no aplicativo. As regras publicadas pelo Root proíbem discurso de ódio, violência coordenada e a glorificação de atos violentos; também vedam violência gráfica e automutilação.
O Ciberlab afirmou acompanhar o uso do serviço por grupos extremistas e apontou “indícios de descumprimento dos deveres de prevenção de riscos e de proteção de crianças e adolescentes previstos no ECA Digital”. O laboratório disse estar iniciando contatos com os responsáveis pelo aplicativo para criar mecanismos de cooperação, agilizar respostas a pedidos policiais e facilitar a obtenção de informações para identificar suspeitos.
A migração para plataformas menores já ocorreu em outros momentos, segundo pesquisadores. Em 2022, após a Justiça bloquear temporariamente o Telegram, grupos extremistas buscaram maneiras de contornar a restrição e também recorreram ao Discord. Em 2024, o aumento da moderação no Discord levou parte deles ao Project Z.
O promotor de Justiça Fábio Costa, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, participa de um núcleo que monitora padrões de comportamento de subculturas extremistas. Ele afirma que redes mais conhecidas, como Instagram e X, podem servir para atrair jovens, enquanto a violência tende a ocorrer em plataformas menores, chamadas de alt-techs. Nelas, diz, pode ser mais difícil estabelecer contato com as empresas.
Costa afirma que a busca por notoriedade e pertencimento ajuda a explicar a adesão de adolescentes a esses grupos. Segundo ele, as comunidades ganharam força durante a pandemia, quando a internet se tornou parte central da socialização de menores. Andrade, por sua vez, disse que os jovens envolvidos precisam de acompanhamento psicológico e que, sem esse suporte, há risco de repetição da conduta.
A restrição ao Discord foi determinada depois que uma adolescente de Naviraí (MS) foi induzida à automutilação e ao suicídio em um grupo fechado da plataforma. Mais de dois meses após a suspensão das transmissões ao vivo, um recurso do Discord para retomar a função foi rejeitado pela Superintendência de Fiscalização da ANPD. A decisão final cabe ao Conselho Diretor da agência.
O Discord afirmou que mantém diálogo com a ANPD para buscar uma solução que permita a retomada das funcionalidades de vídeo. A empresa declarou também estar comprometida em colaborar com formuladores de políticas públicas no Brasil para ampliar a segurança on-line.