Midterms EUA 2026 podem influenciar o real e a Bolsa brasileira
O resultado das eleições para o Congresso americano pode afetar as expectativas sobre juros e déficit nos EUA, mas riscos domésticos também pesam nos ativos brasileiros.
Resumo em 30 segundos
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos renovam toda a Câmara e cerca de um terço do Senado. A composição do Congresso pode influenciar a agenda fiscal do presidente Donald Trump e as expectativas sobre juros e dólar, com reflexos no real e na Bolsa brasileira. Especialistas destacam que fatores internos também podem pesar.
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as midterms, ocorrem nesta terça-feira e podem influenciar o real e a Bolsa brasileira conforme o resultado altere as perspectivas para os juros e as contas públicas americanas. Especialistas afirmam que uma vitória democrata pode limitar a agenda econômica do presidente Donald Trump, mas ressaltam que o efeito nos mercados dependerá também das incertezas no Brasil.
Os eleitores escolhem todos os integrantes da Câmara dos Representantes e cerca de um terço dos senadores. O resultado definirá a composição do Congresso nos dois últimos anos do mandato de Trump e poderá afetar a aprovação de medidas econômicas, tributárias e orçamentárias. Atualmente, os republicanos controlam as duas Casas.
Os democratas precisam conquistar quatro cadeiras para obter maioria na Câmara. A disputa pelo Senado é considerada mais incerta. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira apontou que 46% dos eleitores preferiam os democratas no controle do Congresso, ante 38% favoráveis aos republicanos. A aprovação de Trump estava em 32%.
A insatisfação com o custo de vida, a guerra no Irã e a baixa popularidade do presidente estão entre os fatores que impulsionam os democratas nas pesquisas. Uma mudança no controle do Congresso poderia dificultar a aprovação de novas reduções de impostos defendidas pelos republicanos, segundo Mauro Miranda, professor de finanças do Insper e sócio-gestor da Stellaris Investimentos.
O argumento é que cortes de impostos sem reduções equivalentes de despesas podem ampliar o déficit fiscal dos Estados Unidos e pressionar os juros dos títulos do Tesouro americano, conhecidos como Treasuries. Se o Congresso limitar a expansão fiscal, os juros poderiam subir menos, o que tende a reduzir a atratividade do dólar e favorecer moedas de países emergentes, como o real.
Os rendimentos dos Treasuries influenciam as decisões de investidores internacionais. Quando sobem, aplicações nos Estados Unidos podem se tornar mais atraentes em comparação com ativos de países emergentes. A retirada de recursos do Brasil pode elevar a procura por dólares, pressionar o câmbio e afetar a Bolsa.
Esse movimento também pode atingir o chamado carry trade, estratégia em que investidores buscam obter ganhos com diferenças entre as taxas de juros de países. Cristiano Correa, professor e coordenador de pós-graduação em Negócios do Ibmec São Paulo, afirma que juros americanos mais altos podem reduzir o interesse por mercados emergentes e estimular a saída de recursos do Brasil.
Uma eventual vitória democrata, porém, não garantiria uma reação positiva dos investidores. Um Congresso dividido pode ampliar os conflitos políticos e dificultar a aprovação do orçamento federal, elevando a incerteza sobre o funcionamento do governo. Para Correa, o impacto dependerá de como os mercados avaliarem as consequências econômicas e políticas da nova composição.
Caso o controle republicano seja mantido nas duas Casas, Trump poderá ter mais espaço para avançar sua agenda. Isso poderia abrir caminho para medidas de expansão fiscal e aumento da dívida americana, com a possibilidade de juros mais altos, fortalecimento do dólar e saída de recursos de mercados emergentes.
Além da reação imediata ao resultado, investidores acompanham o desempenho da Bolsa americana. Uma análise da Bloomberg aponta que o S&P 500, principal índice do mercado dos Estados Unidos, costuma subir nos períodos posteriores às eleições de meio de mandato. Segundo dados do Morgan Stanley, desde 1982, fabricantes de semicondutores tiveram o melhor desempenho entre os grupos do S&P 100 nos 12 meses seguintes às eleições, seguidos por empresas de software e hardware.
A divisão do poder entre a Casa Branca e o Congresso pode trazer maior previsibilidade ao limitar iniciativas do governo, avalia Miranda. Ainda assim, o cenário deste ano inclui preocupações com os investimentos elevados em inteligência artificial. A Wolfe Research alertou que dúvidas sobre a capacidade das empresas de tecnologia de transformar esses gastos em receitas e lucros podem conter os ganhos das ações.
Na segunda-feira, o Nasdaq 100, índice com forte presença de empresas de tecnologia, entrou em correção técnica após cair 10% em relação ao pico registrado em outubro. O movimento mostra que fatores ligados ao setor podem influenciar os mercados mesmo depois de conhecido o resultado eleitoral.
No Brasil, a perspectiva internacional não elimina os riscos domésticos. Miranda afirma que discussões sobre a política econômica brasileira, incluindo propostas de redução dos juros por meio de medidas do governo, podem manter a Bolsa, o câmbio e as taxas de juros sujeitos a oscilações. Correa também ressalta que não há relação automática entre o partido vencedor nos Estados Unidos e a valorização dos ativos brasileiros: a reação dependerá das consequências fiscais e das expectativas já incorporadas aos preços.
Para entender
- Treasuries
- São títulos de dívida emitidos pelo governo dos Estados Unidos. Seus rendimentos são acompanhados por investidores no mundo todo e ajudam a comparar o retorno de aplicações americanas com o de ativos de outros países.
- Carry trade
- Estratégia financeira em que investidores buscam aproveitar diferenças entre as taxas de juros de países. As condições de financiamento e o risco cambial podem influenciar o retorno dessa operação.