SUS amplia tratamentos para AVC isquêmico, mas acesso é desigual
Trombólise e trombectomia pelo SUS dependem da rapidez do atendimento e da disponibilidade de centros habilitados, concentrados no Sul e Sudeste.
Resumo em 30 segundos
O SUS oferece trombólise e trombectomia mecânica para casos selecionados de AVC isquêmico, mas o acesso varia entre as regiões e depende do atendimento rápido. Há 129 centros habilitados para urgências de AVC no país, mas apenas 19 podem fazer trombectomia pelo sistema público. Reconhecer os sintomas e acionar o Samu pelo 192 pode agilizar o encaminhamento.
O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou a oferta de tratamentos para o acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI), mas a possibilidade de receber os procedimentos ainda depende da região onde o paciente vive e da rapidez com que chega a um hospital preparado. A trombólise, que dissolve o coágulo com medicamento, e a trombectomia mecânica, que o retira por meio de um cateter, são opções para casos selecionados.
O AVC isquêmico acontece quando um coágulo bloqueia a circulação de sangue em uma parte do cérebro. Ele corresponde a cerca de 85% dos casos no Brasil, segundo os dados apresentados. Já o AVC hemorrágico ocorre quando um vaso se rompe; por isso, é necessário fazer uma tomografia antes da trombólise, para distinguir os dois quadros e evitar que o medicamento agrave um sangramento.
O protocolo nacional prevê o uso de alteplase intravenosa para trombólise desde abril de 2012. Em geral, o tratamento precisa começar até quatro horas e meia após o início dos sintomas. A tenecteplase, outra opção para dissolver o coágulo, está disponível comercialmente no Brasil para tratamento do AVC desde abril e é aplicada em uma única dose intravenosa, em poucos segundos. A alteplase exige uma infusão de cerca de uma hora.
A trombectomia mecânica é considerada quando há obstrução de uma grande artéria cerebral. O procedimento usa um cateter, normalmente introduzido por um vaso na virilha, para alcançar e remover o coágulo. Exames de imagem ajudam a localizar o bloqueio e avaliar o dano cerebral; em casos indicados, a intervenção pode ser feita até 24 horas depois do início dos sintomas.
Os procedimentos podem ser combinados: pacientes elegíveis podem receber primeiro a trombólise e depois passar pela trombectomia. Em outros casos, a equipe pode indicar diretamente a retirada mecânica do coágulo, conforme a condição clínica e os exames. A decisão depende de avaliação médica, e os limites de tempo não substituem a necessidade de atendimento imediato.
A proporção de internações por AVC isquêmico em que houve trombólise subiu de 1,5% em 2017 para 2,52% em 2024 e 2,71% no primeiro semestre de 2025. Os números vêm de um estudo baseado no DataSUS, que analisou 1,66 milhão de internações entre 2017 e junho de 2025. A trombectomia entrou no SUS em novembro de 2023; os procedimentos registrados passaram de 37 naquele ano para 1.026 em 2025, conforme o Ministério da Saúde.
O aumento dos registros não significa que o tratamento esteja acessível em todo o país. O Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) contabiliza 129 centros de atendimento de urgência ao AVC habilitados pelo Ministério da Saúde. Esse total considera hospitais que cumprem critérios específicos de estrutura e equipe, não todas as unidades que atendem pacientes com AVC.
A distribuição dos centros é desigual: 54 ficam no Sudeste, 50 no Sul, 16 no Nordeste, sete no Centro-Oeste e dois no Norte. Apenas 19 hospitais têm habilitação específica para fazer trombectomia mecânica pelo SUS, e sete deles estão em São Paulo. A habilitação permite acesso a incentivos federais, mas não assegura que os repasses cubram todos os custos do serviço.
A trombectomia requer sala de hemodinâmica, equipamentos de imagem, materiais próprios e equipe de neurorradiologia intervencionista disponível continuamente. Frederico Alves, presidente da Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC), afirma que o reembolso do SUS fica abaixo da metade do custo real para os hospitais. Segundo ele, alguns estados complementam os recursos federais, como São Paulo, enquanto outros dependem principalmente da União.
Reconhecer os sintomas e acionar ajuda sem demora pode reduzir o tempo até o tratamento. Fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, boca torta e dificuldade para falar ou compreender são sinais comuns. Também podem ocorrer alterações repentinas na visão e no equilíbrio. Diante de suspeita, a orientação é ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo 192, para que a regulação indique o encaminhamento conforme o quadro e a estrutura disponível.
Levar primeiro o paciente a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou Unidade Básica de Saúde (UBS) pode exigir uma transferência posterior, pois essas unidades geralmente não têm tomógrafo. O exame é essencial para confirmar o tipo de AVC e orientar a conduta. A demora também pode ocorrer quando a rede não consegue encaminhar rapidamente o paciente a um centro especializado.
Hospitais usam estratégias para antecipar decisões e preparar equipes. No Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch, o M’Boi Mirim, a plataforma JOIN permite receber informações sobre pacientes encaminhados pelo Samu antes da chegada. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, equipes podem discutir emergências em tempo real com neurologistas à distância, enquanto a regulação estadual organiza transferências entre regiões.
A trombólise e a trombectomia tratam a fase aguda do AVC isquêmico; depois, a recuperação pode exigir acompanhamento e reabilitação, incluindo fisioterapia, conforme as necessidades de cada paciente. Quanto mais cedo o atendimento começa, maiores são as chances de preservar funções como fala e movimento, segundo especialistas citados.
Para entender
- Trombólise
- Tratamento que usa medicamento intravenoso para dissolver o coágulo que bloqueia a circulação no cérebro. No AVC isquêmico, a alteplase é uma opção prevista no protocolo nacional; a avaliação médica e exames, como a tomografia, são necessários antes da aplicação.
- Trombectomia mecânica
- Procedimento endovascular em que um cateter é conduzido até uma artéria cerebral obstruída para retirar o coágulo. É considerada para casos selecionados, especialmente quando há bloqueio de uma grande artéria, e exige equipe e estrutura especializadas.