Suprema Corte mantém contagem de votos pelo correio na Califórnia
Pedido do governo Trump mirava 20.930 cédulas, mas tribunais apontaram risco de excluir eleitores cidadãos com base em uma lista questionada.
Resumo em 30 segundos
A Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou o pedido do governo Trump para separar e verificar mais de 20 mil votos pelo correio na Califórnia antes da contagem. A lista federal foi contestada pelo Estado e por pesquisadores, que encontraram nomes sem correspondência nos cadastros e cidadãos americanos entre os eleitores apontados.
A Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou nesta segunda-feira (2) um pedido do governo de Donald Trump para impedir a contagem de mais de 20 mil votos por correio na Califórnia. A administração alegava que os eleitores poderiam não ser cidadãos americanos, mas tribunais inferiores também haviam negado a solicitação, que poderia excluir votos legítimos às vésperas da eleição desta terça-feira (3).
O Departamento de Justiça queria que as autoridades estaduais separassem as cédulas apontadas pelo governo e verificassem a cidadania dos eleitores antes de contabilizá-las. A Califórnia questionou a confiabilidade da lista usada para identificar os nomes e afirmou que separar os votos seria difícil durante o processamento, quando as cédulas são desvinculadas dos envelopes com os dados dos eleitores.
Um juiz federal rejeitou o pedido, e uma corte de apelações manteve a decisão. O magistrado considerou que a medida poderia interferir na autonomia do Estado para organizar as eleições e comprometer o direito de voto de cidadãos americanos. A Suprema Corte não apresentou explicação para a negativa, como é comum em decisões sobre pedidos de emergência.
A disputa é parte de uma ofensiva mais ampla do governo Trump para investigar supostos registros e votos ilegais de pessoas sem cidadania americana. Agentes da HSI, braço investigativo do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), foram enviados a residências de suspeitos em seis Estados. Em outubro, uma juíza federal suspendeu essas operações de campo até o fechamento das urnas em nove Estados, citando o risco de intimidação de eleitores.
O governo também cruzou cadastros eleitorais estaduais com bases federais, entre elas o sistema SAVE, usado para verificar situação migratória e cidadania. Especialistas alertam que esses dados podem conter erros. Em Nevada, autoridades estaduais concluíram que os 185 eleitores apontados pelo governo como possíveis não cidadãos eram, na verdade, cidadãos americanos.
Na Califórnia, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) analisaram a lista federal de 20.930 nomes e concluíram que 42% não correspondiam a pessoas nos cadastros eleitorais atuais do Estado. O levantamento também identificou pelo menos 22 cidadãos americanos entre os nomes.
A contestação eleitoral ocorre em meio a preocupações de especialistas com o efeito das investigações sobre a participação dos eleitores e a confiança nos resultados. David Schultz, professor de Estudos Jurídicos da Universidade de Hamline, afirmou que o risco vai além de uma possível interferência na votação: alegações de fraude podem levar milhões de americanos a considerar ilegítimas eleições vencidas por candidatos de que não gostam.
Para entender
- Sistema SAVE
- O SAVE é um sistema federal usado para verificar informações sobre situação migratória e cidadania. A checagem depende dos dados disponíveis e pode exigir análise adicional para confirmar a identidade e a situação de uma pessoa.