Polícia retira jovens da acampada do Rossio em protesto por moradia
A operação em Lisboa terminou com 55 detenções e a apreensão de 228 tendas; os manifestantes contestam a lei do arrendamento em Portugal.
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Jovens acampados no Rossio, em Lisboa, foram retirados pela polícia durante um protesto contra a crise habitacional e a Lei do Arrendamento. A operação deixou 55 pessoas detidas e 228 tendas apreendidas. Liberados no mesmo dia, os manifestantes voltaram à praça à noite, mas ainda não haviam decidido se retomariam o acampamento.
A Polícia de Segurança Pública de Portugal retirou, por volta das 6h desta terça-feira (20), jovens que acampavam na praça Dom Pedro IV, conhecida como Rossio, em Lisboa, para protestar contra a crise habitacional e pedir mudanças nas regras de aluguel. A operação terminou com 55 detenções e a apreensão de 228 tendas, segundo a polícia; dois manifestantes tiveram ferimentos leves, de acordo com relatos de ativistas.
Os jovens foram liberados ainda na tarde de terça-feira, após assumirem o compromisso de comparecer a um tribunal no dia seguinte. À noite, voltaram ao Rossio para protestar, mas ainda não haviam decidido se montariam um novo acampamento. Durante a retirada, os manifestantes acusaram os agentes de violência e de levar pertences pessoais.
A polícia afirmou que as detenções ocorreram por suspeita de crimes, entre eles desobediência. Em comunicado, disse que a força foi usada apenas no mínimo necessário e que a intervenção terminou quando deixaram de existir as condições que a justificavam.
A chamada “acampada” começou ao redor da estátua de Dom Pedro IV, que no Brasil é conhecido como Dom Pedro I. Um dos lemas dos jovens era “Na rua nos querem, na rua nos verão”. Quando os policiais começaram a desmontar as barracas, os participantes cantaram “Grândola, Vila Morena”, canção associada à Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura portuguesa em 25 de abril de 1974.
O protesto expressa a preocupação de jovens com o custo crescente da moradia e a dificuldade de sair da casa dos pais. Manifestações semelhantes começaram na semana passada no Porto e se inspiraram na ocupação da praça Puerta del Sol, em Madri, onde jovens mantêm tendas há cerca de um mês. Os atos portugueses não foram motivados pelas mobilizações recentes na França por melhores condições de ensino.
A principal reivindicação é a revogação da Lei do Arrendamento, aprovada provisoriamente pela Assembleia da República e ainda não promulgada. A legislação integra a estratégia do governo do primeiro-ministro Luís Montenegro para enfrentar a crise habitacional, baseada em estimular a construção civil e ampliar a oferta de imóveis. Entre as medidas previstas estão incentivos a proprietários, facilitação de despejos e o fim dos limites para aumentos de aluguel.
Os manifestantes defendem outra abordagem: ampliar a habitação pública, recuperar imóveis municipais sem uso e estabelecer limites para os aluguéis e para os reajustes na renovação dos contratos. Também pedem que moradores não sejam despejados quando não houver alternativa de moradia e querem restringir a compra de imóveis por fundos imobiliários.
A pauta inclui reivindicações semelhantes às de ativistas espanhóis que se mobilizaram em apoio a Maricarmen Abascal, aposentada de 87 anos despejada do apartamento onde viveu durante toda a vida. Segundo o relato sobre o caso, ela morreu em um hospital. Em Portugal, o debate sobre a lei pode ganhar peso com a repercussão pública dos protestos.
A proposta foi aprovada provisoriamente com votos de partidos de direita e abstenção do Chega, partido de ultradireita. O professor de relações internacionais Álvaro Vasconcelos, que acompanha as manifestações em Lisboa e Paris, avaliou que não espera uma escalada de violência em Portugal semelhante à francesa, embora tenha dito que o aumento da repressão policial poderia provocar reação.