Polícia descarta serial killer e apura mortes ligadas ao PCC em SP
Dez corpos foram encontrados em pouco mais de um mês; três suspeitos tiveram a prisão decretada, enquanto a polícia investiga possível ligação entre os casos.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Civil descartou a hipótese de um serial killer após dez corpos serem encontrados em diferentes pontos de São Paulo. A investigação apura possível participação de pessoas ligadas ao PCC e eventual relação com o tribunal do crime, mas ainda não estabeleceu a motivação das mortes nem se os casos estão conectados.
Dez corpos foram encontrados em sacos plásticos e cobertores em diferentes pontos da cidade de São Paulo, ao longo de pouco mais de um mês. A Polícia Civil descartou a hipótese de um serial killer, que circulou nas redes sociais, e investiga a participação de pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) nos assassinatos; nesta semana, a Justiça decretou a prisão de três suspeitos.
Os investigadores apuram se as mortes têm relação com o chamado “tribunal do crime”, mecanismo ilegal usado por facções para julgar e punir pessoas em determinados territórios. O historiador e cientista social Joel Paviotti, especialista em crime organizado, afirma que as vítimas não tinham características que indiquem uma ligação entre si. Até a apuração referente à oitava vítima, elas tinham passagens pela polícia ou eram acusadas de crimes, segundo Paviotti; algumas poderiam ter dívidas com drogas ou ter cometido delitos considerados graves.
A existência de antecedentes ou suspeitas contra as vítimas não comprova que elas tenham sido julgadas pelo PCC. A investigação ainda precisa estabelecer a motivação de cada morte e a eventual relação entre os casos. Paviotti ressaltou que, embora algumas vítimas pudessem ter ligação com atividades criminosas, não havia vínculo conhecido entre elas.
O tribunal do crime é uma estrutura clandestina que, segundo o especialista, pode envolver diferentes funções: uma pessoa conduz o julgamento, outra executa a vítima e outras transportam e abandonam o corpo. A prática não tem reconhecimento legal e não substitui o sistema de Justiça. A atuação e o alcance desses grupos variam, e a atribuição de uma morte a uma facção depende de provas reunidas pela polícia.
Paviotti avalia que a hipótese de um assassino em série ganhou espaço porque esse tipo de história costuma ser apresentado como uma sequência de crimes com um autor e uma motivação a descobrir. Na avaliação dele, a figura também é familiar ao público por causa de filmes e séries. A atuação de facções, por ser associada a estruturas já conhecidas, pode produzir menos sensação de mistério, embora envolva violência e intimidação.
Para o especialista, os detalhes dos casos não apontam para uma assinatura comum de serial killer. Os corpos foram encontrados em locais diferentes, embalados de maneiras diversas, e as vítimas não compartilhavam identidade ou características que as conectassem. A polícia também descartou essa hipótese, mas isso não encerra a investigação sobre os homicídios.
O abandono de corpos em sacos e cobertores pode ter uma razão prática, segundo Paviotti: o material ajuda a transportá-los sem deixar sangue no veículo e pode fazer com que sejam confundidos inicialmente com lixo. Ele também disse que cortar partes dos corpos facilitaria o carregamento. A explicação é uma avaliação do especialista, não uma conclusão oficial sobre cada caso.
O descarte em vias públicas seria menos habitual do que o enterro em cemitérios clandestinos, de acordo com Paviotti. Esses locais podem ficar em áreas de mata e em regiões de acesso difícil, que se tornam ainda mais complicadas de alcançar durante períodos prolongados de chuva. Como os corpos precisam ser removidos rapidamente, as condições do terreno podem interferir na logística, avaliou.
A descoberta de cemitérios clandestinos também pode dificultar seu uso, segundo o especialista. Ele considera possível que a chuva, o crescimento da vegetação ou a localização de áreas de enterro tenham contribuído para o abandono dos corpos em outros pontos da cidade, mas não apontou uma causa confirmada para a mudança de método.
Não há, segundo Paviotti, um levantamento que permita comparar os dez casos com o total mensal de execuções atribuídas ao PCC. Muitos corpos podem permanecer ocultos, e a quantidade de mortes não identificadas dificulta estabelecer uma série histórica. Por isso, ele classificou o número de ocorrências como significativo, sem afirmar que os casos representem um aumento geral de assassinatos na capital.
Para entender
- Tribunal do crime
- Nome dado a julgamentos clandestinos realizados por facções criminosas para decidir punições em seus territórios. A prática não tem reconhecimento legal e não substitui a Justiça. Atribuir uma morte a esse tipo de estrutura depende de provas reunidas pelas autoridades.