Petróleo Brent e juros dos EUA pressionam inflação no Brasil
Alta do barril e possível aumento dos juros americanos podem encarecer combustíveis e levar o IPCA de 2027 a perto de 4,7% se o petróleo recuar a US$ 85.
Resumo em 30 segundos
A alta do petróleo Brent e a possibilidade de juros maiores nos Estados Unidos aumentam os riscos para a inflação brasileira. O repasse depende, entre outros fatores, dos subsídios aos combustíveis e das margens de refino. Projeções para 2027 variam conforme o preço do barril e o comportamento do câmbio.
A alta do petróleo Brent, que voltou a cerca de US$ 115 por barril em meio ao risco de agravamento do conflito entre Estados Unidos e Irã, e a possibilidade de juros mais elevados nos Estados Unidos ampliam as pressões sobre a inflação brasileira. Economistas avaliam que os dois fatores podem encarecer combustíveis e pressionar o câmbio, enquanto riscos internos também pesam sobre as projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
O petróleo subiu diante de sinais de que as tensões no Oriente Médio podem se intensificar. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou que pretende realizar uma campanha de curta duração após as eleições de meio de mandato no país. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também voltou a fazer ameaças nucleares ao Irã.
No Brasil, subsídios e subvenções têm amortecido parte da alta dos combustíveis. A continuidade dessas medidas, porém, depende de seu custo para as contas públicas. Para Julio Cesar Barros, economista do Daycoval, a persistência do conflito levanta dúvidas sobre por quanto tempo o governo conseguirá manter o apoio. Se os subsídios forem retirados, os preços poderão subir; nos cálculos dele, a retirada acrescentaria de 0,4 a 0,5 ponto percentual ao IPCA.
A dimensão do repasse depende tanto do preço do petróleo quanto da margem de refino, conhecida como “crack spread”. O indicador mede a diferença entre o valor do petróleo bruto e o preço de produtos refinados, como gasolina e diesel, e serve como aproximação da margem das refinarias. Segundo estudo da XP Investimentos, esse spread permanece bem acima dos níveis observados nos últimos cinco anos.
Nas simulações da XP, com o barril a US$ 115, a retirada da desoneração da gasolina poderia elevar o IPCA entre 0,05 e 0,74 ponto percentual, conforme a margem de refino. Com o petróleo a US$ 85, o impacto ficaria entre zero e 0,22 ponto. Se o barril recuasse a US$ 75, seria possível reverter subsídios e desonerações e reduzir a diferença entre preços domésticos e externos sem repasse ao consumidor, segundo os autores do estudo.
A XP considera que as subvenções podem continuar por mais tempo. A partir de preços superiores a US$ 105 por barril, o custo fiscal líquido dessas medidas se torna positivo, de acordo com a análise. Ainda assim, a corretora estima que um reajuste parcial da gasolina pela Petrobras poderia adicionar até 0,15 ponto percentual ao IPCA. No cenário-base da XP, o petróleo teria média de US$ 75 em 2027, permitindo a retirada gradual dos subsídios.
Outra projeção, da consultoria Buysidebrazil, considera que o barril poderá voltar a US$ 85 em 2027, caso os riscos no Oriente Médio diminuam. Nesse cenário, a estimativa para o IPCA no ano que vem fica perto de 4,7%. Se o petróleo permanecer mais caro, a inflação projetada aumentaria: um retorno a US$ 100 por barril acrescentaria 0,4 ponto percentual, segundo a economista-chefe da consultoria, Andréa Damico. Um preço de US$ 110 elevaria a projeção em mais 0,6 ponto.
Damico avalia que os riscos para a inflação estão concentrados em possíveis altas. Entre os fatores domésticos que podem pressionar preços estão o efeito do El Niño sobre os alimentos, os custos do trabalho caso avance o fim da escala 6x1, a reforma tributária e a revisão da cesta de bens e serviços do IPCA, prevista com a nova Pesquisa de Orçamento Familiar, esperada para o fim deste ano.
A política monetária americana também pode influenciar os preços no Brasil. Se o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, elevar os juros, o dólar pode se fortalecer e encarecer produtos importados. Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS GWM, observa que a economia americana segue firme, o desemprego permanece baixo e os dados mais recentes de inflação vieram acima do esperado. O mercado, segundo ela, considera a possibilidade de uma alta dos juros em dezembro.
A XP estima câmbio médio de R$ 5,30 em 2027. Em uma simulação de maior estresse sobre o dólar, a moeda poderia chegar a R$ 5,65 no Brasil, com repasse cambial de 0,45 ponto percentual ao IPCA em 12 meses. O economista da XP Rodolfo Margato ressalta que a melhora dos termos de troca — a relação entre os preços de exportações e importações — tem ajudado a sustentar o real, pois o país exporta commodities. As estimativas para o saldo comercial e o investimento direto no país também foram revisadas para cima.
Barros afirma que o diferencial entre os juros brasileiros e americanos ainda dá suporte ao câmbio. Para ele, o risco maior seria uma aceleração das altas pelo Fed. No Brasil, a expectativa citada pelo economista é de que o Banco Central mantenha cortes de 0,25 ponto percentual por reunião, embora choques de oferta e estímulos fiscais possam alterar o quadro de atividade e inflação.
Para entender
- Crack spread
- É a diferença entre o preço do petróleo bruto e o valor de produtos refinados, como gasolina e diesel. O indicador serve como aproximação da margem de refino e ajuda a avaliar como mudanças no mercado de petróleo podem afetar os preços dos combustíveis.
- IPCA
- O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo é calculado pelo IBGE e é a medida oficial da inflação no Brasil. Ele acompanha a variação de preços de uma cesta de produtos e serviços consumidos por famílias.