Pesquisadoras investigam elo entre violência na infância e demência
Revisão de três estudos aponta risco maior após abusos físicos ou sexuais, mas os dados ainda não provam que a violência seja fator independente.
Resumo em 30 segundos
Uma revisão conduzida por pesquisadoras brasileiras encontrou associação entre violência, sobretudo na infância, e maior risco de demência. Abusos físicos ou sexuais graves na infância foram ligados a um risco aproximadamente duas vezes maior. O trabalho foi apresentado em pôster e ainda não foi publicado em revista científica; os resultados não estabelecem causa e efeito.
Pesquisadoras brasileiras investigam se a violência sofrida por mulheres, especialmente durante a infância, está associada a maior risco de demência na velhice. Uma revisão de estudos conduzida por neurologistas brasileiras identificou uma associação mais consistente para abusos na infância, mas os resultados ainda não permitem afirmar que a violência seja um fator de risco independente para a doença.
O trabalho foi apresentado em julho, em formato de pôster, na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, em Londres, e ainda não foi publicado em revista científica. A análise combinou três estudos: mulheres expostas a violência física ou sexual tiveram risco 50% maior de desenvolver demência do que aquelas sem esse histórico. Entre as que sofreram abuso físico ou sexual grave quando crianças, o risco foi aproximadamente duas vezes maior.
A revisão foi conduzida pela neurologista Raquel Molina, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com Sephora Almeida, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, e outras pesquisadoras. Molina começou a estudar o tema após ouvir relatos de violência de pacientes atendidas no ambulatório de demência do Hospital Universitário Antônio Pedro, ligado à UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro. O serviço atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).
Os dados sobre violência na vida adulta são menos conclusivos. Um estudo australiano com 12.085 mulheres de 70 a 75 anos não encontrou associação entre agressões cometidas por parceiros íntimos e demência, mas registrou mortalidade mais precoce entre as vítimas. Como elas morreram antes, parte pode não ter chegado à idade em que a doença se manifestaria; além disso, apenas 6% das participantes relataram violência por parceiros, proporção que pode refletir subnotificação.
“Tem alguns dados que levantam essa hipótese, mas é uma área pouco estudada ainda”, disse Molina. Segundo a neurologista, ainda faltam pesquisas para estabelecer se a violência, por si só, aumenta o risco. Por isso, ela não é listada nas diretrizes médicas como fator de risco para demência.
Há mecanismos possíveis que ajudam a explicar a hipótese. Traumatismos cranianos repetidos e episódios de sufocamento podem lesar diretamente o cérebro e os neurônios. Estudos também relacionam experiências de violência a alterações como a redução do volume do hipocampo, região envolvida na formação de memórias e afetada pela doença de Alzheimer.
A violência psicológica pode ter efeitos mesmo sem agressão física. Medo, ameaças e humilhações persistentes podem manter o organismo em estado de estresse crônico, com possíveis prejuízos à memória, à atenção e ao aprendizado. Almeida afirma que esse estado provoca alterações biológicas e químicas e pode favorecer transtornos de humor que também afetam o desempenho cognitivo. Crianças expostas a ambientes violentos ou negligentes podem ser afetadas mesmo que não sejam agredidas diretamente.
Um estudo dos Estados Unidos publicado em 2025 na revista Alzheimer’s & Dementia acompanhou 14.771 mulheres, com idade média de 61 anos. As que relataram violência emocional tiveram resultados um pouco piores em testes de memória e atenção, mas não apresentaram declínio cognitivo mais acelerado ao longo de cerca de cinco anos. A pesquisa não avaliou se elas desenvolveram demência.
A investigação enfrenta limitações porque muitos estudos perguntam a pessoas idosas sobre episódios ocorridos décadas antes. A memória e a disposição para relatar abusos podem influenciar as respostas; também é difícil medir a frequência, a duração e a gravidade das agressões, sobretudo das psicológicas e patrimoniais. Já os estudos que acompanham participantes desde a infância ainda não chegaram à faixa etária em que a demência é mais frequente.
Para Molina, pesquisar essa relação pode contribuir para entender por que a demência é mais comum entre mulheres. Estudos sobre essa diferença costumam se concentrar em fatores hormonais, como a menopausa. Almeida defende que a violência seja considerada também uma questão de saúde, além de um problema de segurança.