Lula vence eleição e mercado prevê queda da Bolsa e alta do dólar
Contrato negociado nos EUA indicava dólar a R$ 5,55, mas a cotação não representa diretamente o preço no mercado brasileiro.
Resumo em 30 segundos
A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro deve levar investidores a rever posições e pressionar os ativos brasileiros no primeiro pregão após a eleição. Analistas projetam queda da Bolsa, alta do dólar e dos juros futuros. A Monte Bravo estimou possível recuo superior a 10% do Ibovespa na primeira hora.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, neste domingo, deve provocar uma forte reação nos mercados financeiros brasileiros nesta segunda-feira, primeiro pregão após a eleição. Antes da abertura das negociações, um contrato de derivativos cambiais indicava o dólar a R$ 5,55, enquanto um fundo negociado em bolsa que acompanha ações brasileiras recuou 16% no Japão.
Lula recebeu 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio, segundo os resultados citados. A cotação de R$ 5,55 é uma indicação de um contrato negociado na CME, nos Estados Unidos, e não corresponde diretamente ao preço do dólar no mercado brasileiro. Ainda assim, o movimento apontava para uma desvalorização de mais de 10% do real em relação ao fechamento de sexta-feira.
Investidores e casas de análise projetam quedas na Bolsa, alta do dólar e aumento dos juros futuros, que refletem as expectativas do mercado para as taxas de juros ao longo do tempo. A corretora Monte Bravo estimou que o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, poderia cair mais de 10% na primeira hora de negociação. Mesas de operações em São Paulo também esperavam vendas fortes e consideravam possível a interrupção temporária dos negócios.
Esse mecanismo, chamado de circuit breaker, é acionado pela B3 quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento do pregão anterior. No primeiro estágio, as negociações são suspensas por 30 minutos. Se a queda atingir 15% depois da retomada, há nova pausa, de uma hora; em caso de baixa de 20%, a suspensão ocorre por tempo indeterminado.
A pressão sobre os ativos decorre, em parte, do posicionamento dos investidores antes da eleição. A vantagem de Flávio no primeiro turno havia impulsionado uma alta dos ativos brasileiros, com apostas de que um eventual governo dele adotaria medidas para conter o crescimento da dívida pública e abrir espaço para a redução dos juros. A vitória de Lula levou operadores a rever essas posições.
Uma pesquisa do Citigroup com 73 investidores, divulgada na sexta-feira, mostrou que a maioria esperava que a derrota de Flávio provocasse uma desvalorização de pelo menos 5% do real. Os participantes também previam alta superior a um ponto percentual nas taxas de juros futuros, em meio ao desmonte de apostas em cortes de juros.
O temor de parte do mercado é que a continuidade do governo Lula não traga uma mudança na condução das contas públicas. Desde que voltou ao poder, em janeiro de 2023, o presidente priorizou medidas para elevar o consumo e expandir o crédito, mas, segundo a avaliação de economistas citada por investidores, o déficit público continua sendo um obstáculo para a redução dos juros.
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, que administra R$ 1,1 trilhão em ativos, disse que o mercado terá de rever as expectativas. “Vai ser um dia duro. O mercado vai reprecificar tudo o que foi prometido”, afirmou. Ele acrescentou que os investidores foram surpreendidos e ainda tentavam compreender o resultado.
A reprecificação pode inverter parte dos ganhos obtidos desde o primeiro turno, quando a expectativa de vitória de Flávio atraiu recursos estrangeiros para ativos brasileiros. Na avaliação de Homin Lee, estrategista da Lombard Odier em Cingapura, a reversão da alta era “inevitável”. A trajetória dos negócios nesta segunda-feira mostrará quanto dessa mudança de expectativa já estava incorporada aos preços antes da votação.
Apesar das preocupações fiscais, o mercado brasileiro também teve resultados positivos durante o atual mandato de Lula: o desemprego caiu a níveis inéditos e a renda média dos trabalhadores cresceu. Juros elevados, embora restrinjam a atividade econômica, podem atrair investidores interessados em retornos maiores, fator que ajudou a sustentar moedas e ativos de mercados emergentes em um período de enfraquecimento do dólar.