Reeleição de Lula derruba ativos brasileiros negociados no exterior
Na noite de domingo, o real futuro e ações de empresas brasileiras caíram; analistas esperam pressão sobre dólar, juros e Bolsa no pregão de segunda-feira.
Resumo em 30 segundos
A reeleição de Lula foi seguida por quedas nos contratos futuros do real, no ETF EWZ e em ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos. Analistas esperam pressão sobre o dólar e os juros futuros e recuo do Ibovespa na segunda-feira. A reação dependerá das expectativas sobre as contas públicas e das medidas do governo.
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou forte queda nos ativos brasileiros negociados no exterior na noite deste domingo (25), após a apuração das eleições presidenciais. Por volta das 21h38, o contrato futuro do real com vencimento em novembro recuava 11,29%, enquanto o fundo de índice EWZ, que acompanha ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos, perdia 18,31%.
As ações de empresas brasileiras também caíram no mercado americano. Os papéis da Petrobras recuavam 12,92%, os do Itaú Unibanco, 12,72%, e os do Bradesco, 12,29%. A Vale tinha baixa de 3,95%, e a Ambev, de 0,61%.
A reação ocorre depois de uma valorização de ativos brasileiros associada às apostas de investidores numa vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL). Desde que as candidaturas de Lula e Flávio foram confirmadas, em agosto, a Bolsa brasileira acumulou alta de 15,3%, enquanto o dólar caiu cerca de 2%.
Analistas preveem que o movimento possa continuar no pregão desta segunda-feira (26), com pressão de alta sobre o dólar e os juros futuros e de queda no Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira. A intensidade da reação, porém, dependerá das expectativas sobre as contas públicas e das medidas econômicas do governo.
A preocupação de parte dos investidores é que a continuidade de Lula no governo não seja acompanhada por ajustes na trajetória fiscal. Se o mercado esperar gastos elevados e déficits persistentes, pode exigir juros maiores para emprestar ao governo. Esse prêmio de risco mais alto tende a pressionar as taxas futuras e, ao encarecer o crédito, pode afetar os custos das empresas e as perspectivas de lucro.
Luiz Ferreira, diretor do banco suíço EFG para as Américas, afirmou que a primeira reação pode ser a volta dos juros aos níveis anteriores ao resultado do primeiro turno, além de alta do dólar e devolução de parte dos ganhos da Bolsa. Ele ressalvou que ainda é cedo para concluir que o país enfrentará uma recessão e apontou as contas públicas e a dificuldade de governabilidade como fatores de atenção.
Uma pesquisa do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado indica a dimensão das expectativas negativas. O levantamento mostrou que 80% previam queda superior a 5% do Ibovespa caso Lula vencesse; 7% esperavam recuo de 1% a 5%, e 3% projetavam valorização nessa mesma faixa.
No câmbio, 63% dos gestores consultados esperavam que o real perdesse mais de 5%, enquanto 28% estimavam queda de 2% a 5%. Outros 6% previam valorização superior a 5% da moeda brasileira. Para os juros futuros, 67% projetavam alta acima de 100 pontos-base no contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2029, cuja taxa estava em 12,645%. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.
Fernando Siqueira, chefe de pesquisa da Eleven Financial, disse que a reação poderia ser expressiva porque a valorização dos ativos depois do primeiro turno também havia sido forte. Já Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, afirmou que investidores podem passar a considerar um cenário de impasse entre o Executivo e o Congresso, o que, em sua avaliação, prejudicaria os ativos brasileiros.
O humor de gestores e analistas em grupos de mensagens da Faria Lima mudou durante a apuração. Quando Flávio passou à frente de Lula, houve comemorações; depois que o presidente retomou a dianteira, participantes manifestaram incredulidade e citaram as pesquisas que apontavam vantagem do senador.
As avaliações sobre o efeito da eleição no médio prazo são menos conclusivas. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, disse que o mercado deve acompanhar como o governo se organizará para 2027. Ele lembrou que, após a eleição de 2022, houve pessimismo com o retorno de Lula, mas a Bolsa teve desempenho positivo em 2023 depois da aprovação do novo arcabouço fiscal, conjunto de regras para orientar a evolução das contas públicas.
João Daronco, analista da Suno Research, afirmou que a consolidação dos movimentos iniciais dependerá da condução da política fiscal pelo vencedor. Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, também disse que as medidas do próximo governo serão decisivas para os ativos e que a falta de respostas para a questão da dívida pode manter a volatilidade.