Lula é reeleito e mercado cobra plano para conter a dívida pública
Investidores devem acompanhar as decisões fiscais do novo governo; analistas projetam pressão inicial sobre o dólar e os juros após a vitória de Lula.
Resumo em 30 segundos
A reeleição de Lula surpreendeu investidores que apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro. Analistas esperam reação inicial no câmbio e nos juros e cobram medidas para conter a dívida pública, que chegou a 82,9% do PIB em agosto. O governo também precisará negociar mudanças fiscais com um Congresso dividido.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25), ao vencer o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial. Lula recebeu 51,75% dos votos, contra 48,25% do adversário, e iniciará em 2027 um novo mandato, que terminará em 2030. A confirmação matemática do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral ocorreu às 21h09min.
A vitória representa o quarto mandato de Lula na Presidência, depois das eleições de 2002, 2006 e 2022. Ele será o presidente com mais tempo no cargo por voto popular na história republicana. Geraldo Alckmin (PSB), que já ocupa a Vice-Presidência, foi reeleito na chapa. A posse está prevista para 5 de janeiro de 2027.
O resultado inverteu a posição dos candidatos no primeiro turno, quando Flávio obteve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. A reeleição também contrariou o cenário que predominava entre investidores antes da votação: o economista Bruno Corano, da Corano Capital, estimava que o mercado atribuía cerca de 80% de chance de vitória ao senador, embora as pesquisas apontassem empate técnico.
A aposta em uma vitória de Flávio havia influenciado os preços dos ativos após o primeiro turno. Em um pregão, o Ibovespa avançou 7,7%; o real se valorizou mais de 4%, e os juros futuros recuaram mais de dois pontos percentuais em poucas semanas. A Bolsa recebeu cerca de R$ 18,5 bilhões em capital estrangeiro. Na semana anterior à votação, com Lula em alta nas pesquisas, a procura por proteção contra a valorização do dólar chegou ao maior nível desde 2011.
Com a reeleição, investidores podem desfazer posições montadas em favor do resultado oposto. Corano prevê uma reação inicial mais intensa no câmbio e nos juros de longo prazo; os efeitos sobre a taxa básica de juros e a inflação dependerão, entre outros fatores, das decisões econômicas dos primeiros seis meses do governo. Às vésperas da votação, o dólar estava em R$ 5,02. O economista projeta que a moeda possa ficar entre R$ 5,40 e R$ 5,80 nas primeiras semanas e superar R$ 5,50 em 2027 se não houver um plano fiscal considerado confiável.
A principal cobrança dos analistas será sobre a trajetória da dívida pública e a capacidade do governo de controlar despesas, em vez de buscar equilíbrio apenas com aumento de arrecadação. A dívida bruta alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, maior patamar desde março de 2021, segundo o Banco Central. Em 12 meses, o custo dos juros da dívida equivaleu a 8,86% do PIB.
O resultado primário é a diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento de juros. Para Corano, seria necessário um superávit primário próximo de 2% do PIB para estabilizar a dívida. Atualmente, há déficit de 0,62%, e a projeção do mercado para 2027 é de déficit de 0,40%. A analista Maria Carolina Luchesi, da Hike Capital, afirma que, enquanto o resultado primário não compensar parte relevante do custo dos juros, a dívida tende a continuar crescendo. Corano estima que ela se aproxime de 88% do PIB em 2027.
O espaço para reduzir gastos é limitado porque mais de 90% das despesas primárias federais são obrigatórias, incluindo aposentadorias, benefícios sociais e salários. O arcabouço fiscal, conjunto de regras que estabelece limites e metas para as contas públicas, já acionou travas após o déficit de 2025. Entre as restrições previstas estão limitar a alta real da folha a 0,6% em 2027 e impedir a criação de novos benefícios tributários.
O salário mínimo é um ponto central nessa discussão, pois aposentadorias e benefícios são vinculados ao piso. O projeto de Orçamento de 2027 prevê reajuste de R$ 120, para R$ 1.741. Um estudo da Genial Investimentos calcula que cada R$ 1 de aumento no mínimo acrescenta R$ 413,2 milhões por ano às despesas; a correção prevista elevaria os gastos em R$ 49,6 bilhões. Se o reajuste acompanhasse apenas a inflação, a economia estimada em 2027 seria de R$ 16,2 bilhões.
O Orçamento de 2027, já enviado ao Congresso e previsto para votação até dezembro, estabelece superávit de 0,5% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões, e limite de despesas de R$ 2,58 trilhões. Com abatimentos autorizados por lei, porém, o superávit projetado cai para R$ 18,6 bilhões, ou 0,13% do PIB. Analistas distinguem o cumprimento formal da meta da melhora efetiva da trajetória da dívida. O primeiro sinal da execução deve vir do relatório bimestral de março, que poderá indicar bloqueios de despesas.
Lula propõe manter o arcabouço fiscal e alcançar superávit de cerca de 1,3% do PIB em 2030, combinado com aumento de impostos sobre rendas altas, valorização real do salário mínimo e mais investimento público. O Congresso será um obstáculo às mudanças: o PL elegeu 121 deputados, enquanto a federação PT-PCdoB-PV terá 88. Alterações constitucionais exigem 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos, o que torna necessários acordos com partidos de centro e outras bancadas.
A equipe econômica também será observada. Dario Durigan comanda a Fazenda e Bruno Moretti, o Planejamento, após a saída de Fernando Haddad e Simone Tebet para disputar a eleição. Corano afirma que Lula avalia indicar Alckmin para a Fazenda. Para os analistas, além dos nomes, importará se o presidente dará respaldo à equipe em decisões de contenção de gastos. O Banco Central mantém autonomia legal, e o mandato de seu atual presidente vai até o fim de 2028.
Na política monetária, Corano considera provável que o Comitê de Política Monetária interrompa os cortes da Selic em 4 de novembro, mantendo a taxa em 13,75%. Uma Selic elevada encarece o crédito e o custo de financiamento da dívida, enquanto a inflação também pode ser afetada por uma alta do dólar. As projeções para os juros e os preços, contudo, dependerão das medidas do governo e da evolução da economia.