Lula vence eleição e mercados projetam queda da Bolsa e do real
Pesquisa com 73 gestores aponta que 80% esperam recuo superior a 5% do Ibovespa; ativos brasileiros negociados no exterior já caíam na noite de domingo.
Resumo em 30 segundos
Analistas e investidores preveem reação negativa dos mercados à vitória de Lula, com queda da Bolsa e desvalorização do real. Em pesquisa do Citi, 80% dos 73 gestores consultados esperavam recuo superior a 5% do Ibovespa. Ativos brasileiros negociados em Nova York e Tóquio já registravam perdas na noite de domingo.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo deve provocar forte reação negativa nos mercados na segunda-feira, 26, segundo analistas e investidores ouvidos antes da votação. As projeções incluem queda da Bolsa brasileira, desvalorização do real e possível atuação do Banco Central para manter a liquidez no mercado de câmbio.
Um levantamento divulgado na sexta-feira pelo Citi, com respostas de 73 gestores de fundos de ações e multimercado, indicou que 80% esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa caso Lula vencesse. Outros 7% projetavam recuo entre 1% e 5%, enquanto 3% previam valorização de 1% a 5%. Para o real, 63% esperavam desvalorização superior a 5%; 28% estimavam queda entre 2% e 5%.
Os ativos brasileiros negociados fora do país já recuavam na noite de domingo. O EWZ, fundo negociado em Nova York que acompanha as maiores empresas da Bolsa brasileira, caía 18,29%, a US$ 34,80. A cota estava US$ 7,79 abaixo do fechamento de sexta-feira. Em Tóquio, o Next Funds Ibovespa Linked, principal fundo de índice brasileiro negociado na Bolsa local, registrava baixa de 11,80%, a 288 ienes, no pregão de segunda-feira pelo horário japonês.
Daniel Wainstein, co-CEO e sócio fundador da Seneca Evercore, afirmou que a vitória de Lula surpreendeu investidores que vinham apostando na eleição de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo ele, o Ibovespa subiu 27,3% neste ano, e parte da expectativa de mudança de governo já estava refletida nas cotações. Com o resultado, avaliou, investidores devem rever as posições e pode ocorrer uma correção.
O comportamento da Bolsa durante a campanha reforçou a expectativa de volatilidade. O índice avançou 8,8% na primeira semana depois do primeiro turno, em que Flávio recebeu mais votos que os demais candidatos. Quando a disputa se acirrou e Lula ganhou força, o Ibovespa recuou 2,3% em três pregões.
Marcos Weigt, diretor de tesouraria do Travelex Bank, prevê estresse nos ativos brasileiros já na abertura de segunda-feira. Ele disse que a Bolsa pode interromper temporariamente as negociações se o Ibovespa cair mais de 10%, mecanismo conhecido como circuit breaker. Também projetou que os limites de oscilação do dólar futuro e dos juros podem ser atingidos.
Weigt afirmou que o Banco Central provavelmente venderá dólares no mercado à vista para oferecer liquidez e evitar disfunções diante de uma procura mais intensa pela moeda americana. A intervenção, segundo ele, não impediria necessariamente a alta do dólar, que poderia abrir acima de R$ 5,30. A atuação cambial pode incluir operações para aumentar a oferta de moeda, sem que isso signifique fixar uma cotação específica.
Wainstein disse que uma reação negativa pode ser revertida se o novo governo apresentar medidas concretas de ajuste fiscal, compromisso com a estabilização da dívida e respeito à autonomia do Banco Central. A escolha da equipe econômica também será importante para os investidores, afirmou. Ele citou como referência a presença de Henrique Meirelles na equipe de Lula em um mandato anterior.
O desafio fiscal, segundo Wainstein, é maior do que o enfrentado pelo presidente ao assumir em 2023. A dívida bruta está próxima de 83% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 72% no fim de 2022. Naquele início de mandato, o país tinha superávit primário de 1,25% do PIB; agora, registra déficit de aproximadamente 0,6% nos 12 meses mais recentes. O resultado primário não inclui o pagamento de juros da dívida.
O setor público acumulou R$ 1,2 trilhão em juros nos últimos 12 meses, quase 9% do PIB, segundo os dados citados por Wainstein. Ele defendeu que o governo discuta mudanças previdenciárias, com regras futuras e períodos de transição, sem cortes lineares nem perda de direitos adquiridos. O projeto orçamentário de 2026 previa mais de R$ 1,1 trilhão em despesas com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e cerca de R$ 457 bilhões com pessoal e encargos.
O economista também afirmou que a oposição terá mais força para influenciar a agenda e condicionar votações. Lula precisará negociar com partidos além dos que o apoiaram na eleição, avaliou. Para Wainstein, a revisão dos gastos previdenciários deveria ser prioridade, seguida da análise das despesas com servidores.
Para entender
- Circuit breaker
- Mecanismo que interrompe temporariamente as negociações na Bolsa quando o Ibovespa cai além de um limite definido. A pausa busca reduzir a volatilidade e dar tempo para que investidores avaliem as informações e as ordens de compra e venda.