Lula vence eleição e provoca reação nos ativos brasileiros
Ações brasileiras caem em Tóquio e derivativos apontam alta do dólar após a vitória; analistas preveem forte volatilidade na abertura da Bolsa.
Resumo em 30 segundos
A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro levou investidores a rever posições que favoreciam ativos brasileiros após o primeiro turno. Um ETF de ações do país caiu até 16% em Tóquio, enquanto derivativos cambiais indicaram dólar a R$ 5,55. Analistas previram pressão sobre a Bolsa, o real e os juros futuros.
Investidores se preparavam para fortes oscilações nos ativos brasileiros nesta segunda-feira após Luiz Inácio Lula da Silva vencer a eleição presidencial contra Flávio Bolsonaro. Os primeiros sinais apontavam para uma queda expressiva das ações e desvalorização do real, em uma reversão das apostas que haviam impulsionado o mercado após o resultado do primeiro turno.
Em Tóquio, um fundo de índice (ETF) que acompanha ações brasileiras recuou até 16% durante o pregão, a maior queda intradiária desde 2020. Já um contrato de derivativos cambiais negociado na Bolsa Mercantil de Chicago indicava o dólar a R$ 5,55. Embora esse contrato não seja uma cotação direta do mercado à vista, o nível sugeria alta superior a 10% da moeda americana em relação ao fechamento de sexta-feira.
A corretora Monte Bravo estimou que o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, poderia cair mais de 10% na primeira hora de negociação. Em pesquisa do Citigroup publicada na sexta-feira, a maioria dos 73 investidores consultados previa que uma derrota de Bolsonaro provocaria recuo de pelo menos 5% do real e alta superior a um ponto percentual nos juros futuros. A expectativa refletia também o abandono de apostas em cortes de juros feitas depois da vantagem de Bolsonaro no primeiro turno.
O mercado havia se posicionado majoritariamente para uma vitória de Flávio Bolsonaro. A liderança inesperada dele na primeira etapa da eleição provocou uma alta dos ativos brasileiros e atraiu recursos estrangeiros, em parte pela expectativa de maior controle dos gastos públicos e de redução futura dos juros. Instituições financeiras, entre elas UBS Global Wealth Management, Morgan Stanley, JPMorgan Chase e Citigroup, divulgaram recomendações favoráveis aos investimentos no país.
Com as pesquisas indicando uma disputa apertada, investidores também reforçaram proteções para suas carteiras. Ainda assim, a vitória de Bolsonaro era vista como o cenário mais provável por muitos participantes do mercado. A mudança no resultado, portanto, levou investidores a rever posições e elevou a possibilidade de vendas motivadas pela reação imediata, além de ajustes graduais nas expectativas econômicas.
Homin Lee, estrategista da Lombard Odier em Cingapura, descreveu a reversão da alta anterior como “inevitável”. Cathy Hepworth, responsável pela equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, afirmou que os investidores tenderiam a recuar. Ela avaliou que os ativos poderiam passar por uma reprecificação significativa, mas disse que a situação poderia se estabilizar com o tempo.
Guilherme Abbud, presidente-executivo da Persevera Asset Management, afirmou que quedas costumam envolver mais pânico e ordens tomadas por emoção. Ele considerou possível que Lula adote uma postura mais cautelosa em relação aos gastos, mas disse que o mercado provavelmente não presumirá essa mudança de imediato.
Desde que voltou à Presidência, em janeiro de 2023, Lula buscou elevar o consumo e ampliar o crédito. O déficit público, porém, continuou a preocupar economistas, que o apontam como uma das razões para os juros reais elevados no país. Juros altos encarecem o crédito e restringem a atividade, mas também podem atrair investidores em busca de retornos maiores.
Durante o atual mandato, o desemprego caiu a níveis inéditos e a renda média dos trabalhadores cresceu, segundo o relato sobre o período. Esses fatores e o cenário internacional haviam contribuído para o desempenho positivo dos ativos brasileiros, apesar das preocupações fiscais. A reação desta segunda-feira refletia a mudança nas expectativas políticas, mas não determinava, por si só, o comportamento do mercado nos próximos dias.