Lula terá de negociar nova relação com Centrão para governar
Com o PL à frente das bancadas da Câmara e do Senado, aliados defendem que partidos com ministérios assumam compromisso e votem com o governo.
Resumo em 30 segundos
Reeleito para um novo mandato a partir de 2027, Lula terá de negociar com partidos do Centrão diante do avanço do PL no Congresso. Aliados defendem que siglas com ministérios se comprometam mais com as pautas do governo. As eleições para as presidências da Câmara e do Senado serão o primeiro teste da articulação.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de negociar uma nova relação com partidos do Centrão para governar a partir de 2027, diante de um Congresso em que o PL de Flávio Bolsonaro será a maior bancada da Câmara e do Senado. Aliados do presidente defendem que as siglas que ocuparem ministérios assumam compromisso mais claro com as pautas do governo e votem de forma alinhada no Legislativo.
O ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, responsável pela articulação com o Congresso, disse que será necessário definir quais partidos fazem parte da base. “Se os partidos do Centrão vão para o governo, precisam ser leais e fiéis”, afirmou. Para ele, não deve continuar a situação em que uma legenda ocupa espaço no Executivo, mas mantém liberdade para votar contra as orientações do Planalto.
Lula também tratou do tema no primeiro discurso após a reeleição, no domingo. “Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu. E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, disse, ao responder a avaliações de que a composição mais conservadora dificultará a governabilidade.
No terceiro mandato, o presidente distribuiu ministérios a União Brasil, PP, Republicanos, PSD e MDB. As legendas, porém, se declaravam independentes e não votavam necessariamente com o governo. No segundo turno, MDB e PSD liberaram seus diretórios para apoiar Lula ou Flávio; União Brasil, PP e Republicanos apoiaram o senador do PL.
O Planalto se incomodou com a rapidez com que algumas siglas endossaram o adversário, segundo relatos de um governista que acompanhou as conversas. Após a eleição, foram exonerados ocupantes de cargos federais indicados por políticos desses partidos, entre eles um aliado do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL).
O PL terá 121 deputados, 24 a mais do que na legislatura atual, e 28 senadores. O PT cresceu de 68 para 70 deputados. A federação União Brasil-PP passou de 105 para 87 cadeiras na Câmara, enquanto o PSD e o Republicanos mantiveram bancadas de cerca de 40 deputados cada. O MDB caiu de 41 para 36.
Embora o PL seja a maior força individual, o Centrão reúne partidos com peso suficiente para influenciar a agenda e negociar cargos e propostas. Na Câmara, União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB e outras siglas podem formar maiorias com diferentes combinações. A articulação, porém, não garante apoio automático: a experiência do atual governo mostrou que partidos com presença na Esplanada podem votar de forma independente.
O primeiro teste para a nova gestão será a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, prevista para fevereiro, quando os novos parlamentares assumem. Hugo Motta (Republicanos-PB), na Câmara, e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), no Senado, buscam continuar nos cargos e são vistos por interlocutores de Lula como possíveis aliados na construção da base.
Motta já reuniu apoio de partidos como PP, União Brasil, Republicanos, PSD, MDB, PSDB, Cidadania, Podemos, Solidariedade, PRD e Avante. PDT e PSB também declararam apoio. Parlamentares do PT devem defender a recondução do presidente da Câmara. O objetivo de Motta é manter unido esse grupo e evitar que o PL consiga concentrar apoio em uma candidatura própria.
A disputa no Senado é considerada mais difícil para Alcolumbre. O PL terá 28 senadores, e parlamentares eleitos de direita, entre eles Guilherme Derrite (PP-SP), André do Prado (PL-SP), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Deltan Dallagnol (Novo-PR) e Evair de Melo (Republicanos-ES), descartam apoiá-lo. Rogério Marinho (PL-RN) é apontado como o nome mais forte do bolsonarismo para concorrer; Tereza Cristina (PP-MS) também se apresenta como pré-candidata.
As presidências das duas Casas têm influência sobre a pauta de votações e sobre o funcionamento do Legislativo. Para Lula, a recondução de Motta e Alcolumbre pode facilitar a tramitação de projetos, mas não substitui a negociação com as bancadas. Na Câmara, uma proposta de emenda à Constituição exige 308 votos em dois turnos; no Senado, são necessários 49 votos, também em dois turnos. Esses quóruns elevados tornam indispensáveis acordos que ultrapassem a base de esquerda.
Aliados de Lula também defendem manter mobilizada a base social que participou das manifestações no segundo turno. O presidente disse, em uma transmissão ao vivo na semana passada, que será preciso pensar em outra forma de governar, com maior participação social. A estratégia deverá combinar essa mobilização com negociações partidárias para aprovar as prioridades do novo mandato.
Para entender
- Centrão
- Expressão usada para se referir a partidos e parlamentares de centro e centro-direita que negociam apoio a propostas e governos. Não é um bloco partidário fixo: sua composição e seus alinhamentos podem variar conforme a pauta e as negociações políticas.