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Sábado, 24 de outubro de 2026

Interior do Rio supera capital em eleitores e define disputa estadual

Com 5,09 milhões de votantes contra 4,95 milhões na capital, os municípios do interior deram vantagem a Douglas Ruas no primeiro turno da eleição para governador.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Eleitores chegam a um local de votação em uma cidade do interior do Rio de Janeiro. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Eleitores chegam a um local de votação em uma cidade do interior do Rio de Janeiro.
Resumo em 30 segundos

Os municípios do interior fluminense, incluindo Niterói e São Gonçalo, reúnem mais eleitores que a capital. Douglas Ruas venceu em 79 cidades e superou Eduardo Paes na disputa estadual. A diferença entre as regiões também apareceu na eleição presidencial e na composição da Assembleia Legislativa.

O interior do estado do Rio de Janeiro tem mais eleitores que a capital e foi decisivo para o resultado do primeiro turno das eleições de 2026. Enquanto a cidade do Rio reúne 4,95 milhões de votantes, os municípios do interior — incluindo Niterói, São Gonçalo e a Região dos Lagos — somam 5,09 milhões, diferença que ajudou o governador eleito Douglas Ruas (PL) a superar Eduardo Paes (PSD) na disputa estadual.

A divisão entre capital e interior também aparece na eleição presidencial. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 55,32% dos votos no interior fluminense, acima dos 53,6% registrados por ele em Goiás. O resultado e a disputa pelo governo reacenderam o debate sobre as diferenças políticas, econômicas e sociais entre as regiões do estado.

Ruas venceu em 79 municípios; Paes liderou em 13, entre eles a capital, Niterói, Valença e Três Rios. Na cidade do Rio, Paes recebeu 53,5% dos votos, mas a vantagem não foi suficiente para compensar o desempenho de Ruas na Baixada Fluminense e no interior. A base eleitoral do governador eleito é São Gonçalo, e sua vice, Fernanda Louback (PL), é de Niterói.

O peso do eleitorado de fora da capital também se refletiu na eleição para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), cujos deputados assumem em 2027. Vinte e nove dos eleitos tiveram desempenho mais forte no interior, contra 28 com votação mais expressiva na capital. A Baixada Fluminense foi importante para a escolha de 13 parlamentares. Os dois nomes que disputam a presidência da Casa também têm bases fora da capital: Jair Bittencourt (PL) teve seu melhor resultado no Noroeste Fluminense, e Guilherme Delaroli (PL), em Itaboraí.

A campanha para o segundo turno presidencial acompanhou essa geografia eleitoral. Ruas e aliados do PL percorreram municípios como Bom Jesus do Itabapoana e Itaperuna e fizeram campanha para Flávio Bolsonaro. Os senadores eleitos pelo Rio Carlos Jordy e Carlos Portinho, também do PL, participaram de ações que destacaram valores cristãos e o agronegócio.

Partidos de esquerda, entre eles PT e PSOL, organizaram atividades fora da capital para buscar eleitores na Região Serrana, na Região dos Lagos e no Norte Fluminense. O deputado federal Glauber Braga e a deputada estadual Renata Souza, ambos do PSOL, participaram de atos em Cabo Frio e Arraial do Cabo. Também houve mobilizações em Friburgo, Macaé, Rio das Ostras, Campo Grande e São Gonçalo.

O comportamento eleitoral do interior já havia se destacado em 2022. No segundo turno presidencial daquele ano, 58% dos eleitores da região votaram em Jair Bolsonaro e 42% em Luiz Inácio Lula da Silva. Na disputa estadual, Cláudio Castro (PL) obteve 63% dos votos no interior.

Para o cientista político Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o voto conservador na região tem relação com religião e costumes, mas também com a atuação de lideranças locais. Prefeitos, vereadores e deputados com bases municipais influenciam campanhas e, segundo o professor, tendem a se aproximar do partido ou da coligação do governador para ampliar o acesso a recursos e a interlocução com o governo estadual.

Cassimiro afirma ainda que a desconfiança em relação à capital pode pesar na escolha dos eleitores. Parte dos moradores do interior considera que a cidade do Rio recebe prioridade na distribuição de recursos públicos, uma percepção que reforça a distância entre as duas regiões. Essa divisão tem raízes históricas na fusão, em 1975, dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro.

A fusão reuniu uma antiga capital federal, com características urbanas próprias, e um estado com municípios e economias diferentes. Segundo Cassimiro, a concentração de universidades e empregos na capital contrasta com atividades específicas do interior, como agricultura, indústria e turismo. Essa distribuição desigual, somada a diferenças na vida religiosa e na dinâmica social, pode contribuir para padrões distintos de votação.

A antropóloga Joana Bahia, pesquisadora e coordenadora do Núcleo de Estudos da Religião da Uerj, observa que a participação religiosa na política não começou recentemente: lideranças de grandes igrejas apoiaram candidatos já na eleição presidencial de 1989. Ela ressalta, porém, que não se pode presumir que eleitores evangélicos ou cristãos votem necessariamente em candidatos da mesma religião. Bahia também aponta o crescimento da participação de mulheres conservadoras em debates sobre saúde, educação e família.

Em São José do Vale do Rio Preto, na Região Serrana, Ruas alcançou 70,87%, o maior percentual obtido por ele em um município fluminense. A cidade tem também uma proporção elevada de moradores evangélicos: 47,1%, a segunda maior do estado, atrás de Varre-Sai. Christina Cavallari, moradora de Petrópolis que trabalha no município, descreveu sua cidade de trabalho e a de residência como conservadoras e afirmou que essa orientação persiste mesmo diante de desemprego, informalidade e dependência de assistência social.

Bahia defende que a presença contínua do poder público, com investimentos em serviços como hospitais, educação e trabalho, pode fortalecer a percepção de que o Estado atende às necessidades da população. O contraste entre a capital e o interior, portanto, envolve não apenas preferências ideológicas, mas também experiências distintas de representação e acesso a serviços.

Fontes: O Globo

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