Flávio Bolsonaro faz afirmações imprecisas em entrevista à Globo
As declarações sobre juros, dívida pública, ministérios e Daniel Vorcaro foram confrontadas com dados oficiais; duas afirmações também foram confirmadas.
Resumo em 30 segundos
Na entrevista à TV Globo, Flávio Bolsonaro fez declarações sobre economia, governo e os atos de 8 de janeiro. A checagem encontrou afirmações imprecisas ou sem contexto sobre juros, dívida pública, ministérios e outros temas. Também foram confirmados os dados sobre feminicídios em 2025 e famílias com dívidas a vencer.
O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, apresentou informações imprecisas ou sem contexto sobre juros, dívida pública, número de ministérios e outros temas durante entrevista à TV Globo, na noite de sexta-feira, 16. Entre as afirmações examinadas estão também declarações sobre a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, a atuação do ex-ministro Sérgio Moro e casos relacionados aos atos de 8 de janeiro.
A taxa básica de juros, a Selic, foi um dos assuntos mencionados. Flávio afirmou que o Boletim Focus de 2022 estimava juros de 7% e que a taxa está em 14%. A estimativa para o fim de 2026, porém, é de 13,25%, segundo o Relatório Focus. Em dezembro de 2022, a mediana das projeções apontava Selic de 8% ao ano para 2026, de acordo com um relatório do Banco Central. Naquele momento, esperava-se que a taxa ficasse em 13,75% até agosto de 2023 e depois começasse a cair, o que não ocorreu.
Sobre a dívida pública, o senador citou R$ 11 trilhões. Esse montante corresponde à Dívida Bruta do Governo Geral, que reúne obrigações do governo federal, dos estados e dos municípios. O valor era referente a agosto e foi divulgado pelo Banco Central em 30 de setembro. Já a Dívida Pública Federal, indicador que considera os débitos sob responsabilidade do governo federal, somava R$ 9,29 trilhões naquele mês, conforme o relatório mais recente do Tesouro Nacional, publicado em 28 de setembro.
A diferença entre os indicadores é relevante porque eles abrangem conjuntos distintos de devedores. A dívida bruta geral inclui diferentes níveis de governo, enquanto a Dívida Pública Federal se refere aos compromissos federais. Assim, os dois números não são medidas intercambiáveis do endividamento do país.
Flávio também disse que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem 39 ministérios. Lula iniciou o terceiro mandato, em janeiro de 2023, com 37 pastas ou órgãos com status ministerial: eram 31 ministérios e seis estruturas cujos titulares tinham esse status. Atualmente, há 38 ministros e ministras em exercício. A Secretaria Extraordinária para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul, criada provisoriamente em maio de 2024, tinha status de ministério e foi extinta em setembro do mesmo ano.
Outra afirmação tratou dos cargos comissionados. O senador atribuiu ao governo Jair Bolsonaro a extinção de 22,5 mil desses postos. Em 2019, o então presidente decretou a eliminação de 21 mil cargos comissionados e funções gratificadas do Executivo federal.
Na entrevista, Flávio afirmou que procurou Vorcaro quando ainda não havia suspeitas sobre o banqueiro. As conversas registradas entre os dois ocorreram de 8 de dezembro de 2024 a 16 de novembro de 2025. Em 20 de agosto de 2025, uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou pela primeira vez suspeitas de crimes financeiros na gestão do Banco Master. Em mensagem enviada em novembro daquele ano, Flávio cobrou recursos para um filme e escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs.”
O senador estimou em R$ 24 bilhões os gastos com “penduricalhos” nos Três Poderes. Um estudo encomendado pela organização República.org calculou R$ 24,3 bilhões em pagamentos acima do teto constitucional em 2025, mas o levantamento se restringiu à remuneração da elite das carreiras jurídicas: magistratura, Ministério Público, Advocacia Pública e Defensoria Pública. Já um relatório de uma comissão técnica formada por representantes dos Três Poderes estimou em cerca de R$ 9,8 bilhões o total de verbas pagas acima do teto no funcionalismo.
“Penduricalhos” é o nome dado a benefícios adicionais, em geral classificados como indenizações, que podem não ser submetidos ao limite constitucional de remuneração do serviço público. Por isso, o valor citado depende do grupo considerado e do critério usado para contabilizar esses pagamentos.
Flávio disse ainda que Sérgio Moro pediu para deixar o governo Bolsonaro. O então ministro da Justiça e Segurança Pública se demitiu após 16 meses no cargo, em meio à decisão de Bolsonaro de substituir o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Moro afirmou publicamente que o presidente queria trocar o comando da corporação para ter acesso a informações e relatórios de inteligência, e disse que as investigações deveriam ser preservadas.
Sobre o 8 de janeiro, Flávio mencionou um homem que vendia algodão-doce e teria sido condenado por atos golpistas. Há registros de que o sorveteiro Otoniel Francisco da Cruz e o pipoqueiro Carlos Antônio Eifler foram presos em 9 de janeiro, em um acampamento bolsonarista, e não enquanto trabalhavam. O Supremo Tribunal Federal (STF) os condenou, em 4 de abril de 2025, a um ano de reclusão por associação criminosa. A pena foi substituída por restrição de direitos, 225 horas de serviços comunitários, participação presencial em curso sobre democracia, Estado de Direito e golpe de Estado, além de multa.
O senador também afirmou que a União tem R$ 3 trilhões a receber. O estoque de créditos inscritos na Dívida Ativa da União era de R$ 2,99 trilhões no fim de 2024 e chegou a R$ 3,55 trilhões em setembro de 2026, segundo o dado mais recente da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Dívida ativa é o conjunto de valores que o poder público cobra de pessoas e empresas após a inscrição formal do débito.
Duas afirmações foram confirmadas pelos dados citados: o Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, maior total desde que o crime foi tipificado, em 2015; e 82% das famílias relataram ter dívidas a vencer em julho, recorde da série mensal iniciada em 2010 pela Confederação Nacional do Comércio. A alta dos feminicídios, contudo, ocorre há anos e atravessou diferentes governos; o maior aumento recente, de 7,6%, ocorreu de 2021 para 2022, enquanto em 2025 a elevação foi de 4%.