Ibovespa cai 17,5% na semana após reeleição de Lula
O dólar subiu 9,18% no período e fechou a R$ 5,4443; em outubro, a Bolsa recuou 9,21% e a moeda americana avançou 5,31%.
Resumo em 30 segundos
O Ibovespa caiu 17,5% na semana encerrada em 30 de outubro, e o dólar subiu 9,18%, em uma reversão após a reeleição de Lula. A reação dos mercados refletiu preocupações com as contas públicas e os juros. Para novembro, analistas veem possibilidade de repique, mas dizem que a recuperação depende de maior previsibilidade fiscal.
A Bolsa brasileira caiu 17,5% na semana encerrada nesta sexta-feira, 30 de outubro, enquanto o dólar subiu 9,18%, em uma forte reversão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Ibovespa fechou o último pregão do mês aos 167.921,80 pontos, e a moeda americana terminou cotada a R$ 5,4443.
A queda semanal do índice foi a quinta maior desde o início do Plano Real, em 1994, e a mais intensa desde a semana encerrada em 20 de março de 2020, quando o Ibovespa recuou 18,88% em meio ao início da pandemia de coronavírus. Em outubro, a Bolsa perdeu 9,21%, enquanto o dólar acumulou alta de 5,31%, a maior valorização mensal da moeda em 2026.
O mês começou com forte alta das ações depois do primeiro turno. Em 5 de outubro, o Ibovespa avançou 7,70%, para 206.911,89 pontos, e superou pela primeira vez os 200 mil pontos no fechamento. Durante o pregão, atingiu 209.605,70 pontos, recorde intradiário. Naquele momento, investidores apostavam que Flávio Bolsonaro (PL), que havia terminado a primeira etapa da disputa à frente de Lula, poderia vencer e adotar uma agenda de ajuste fiscal.
As expectativas mudaram com a aproximação do segundo turno, e a vitória de Lula, em 25 de outubro, desfez parte das posições montadas na Bolsa. Na segunda-feira (26), o Ibovespa caiu 13,88%, para 176.608,23 pontos, depois de tocar 169.516,43 pontos. Foi o pior resultado diário desde março de 2020 e levou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente as negociações diante de uma queda intensa, para conter movimentos bruscos no mercado.
O dólar subiu 8,21% naquele pregão, para R$ 5,403, e chegou a R$ 5,6049 durante a sessão, na maior alta percentual diária desde janeiro de 1999. A moeda encerrou a semana com valorização de 9,18%. Os juros futuros também dispararam: o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2031 passou de 12,64% na sexta-feira anterior para 15,3%.
A reação refletiu o receio de que o governo não apresente medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A preocupação com gastos, dívida e inflação elevou o prêmio de risco exigido pelos investidores para aplicar no Brasil, pressionando os juros de longo prazo e reduzindo o valor que o mercado aceita pagar pelas ações. Taxas mais altas também podem encarecer o crédito para empresas e consumidores e limitar as perspectivas de lucro das companhias.
A queda não atingiu todos os setores da mesma forma. Bancos perderam R$ 240,1 bilhões em valor de mercado na segunda-feira, segundo levantamento da Elos Ayta; energia elétrica perdeu R$ 92,8 bilhões e petróleo, R$ 80,5 bilhões. Empresas endividadas e com retorno esperado no longo prazo tendem a ser mais sensíveis à alta dos juros, porque o custo de financiar suas operações aumenta e os ganhos futuros passam a valer menos no cálculo dos investidores.
Os juros americanos e a atuação do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, também estão no radar. O Fed manteve as taxas entre 3,75% e 4% ao ano em outubro, mas houve dois votos favoráveis a uma alta. Uma eventual elevação em dezembro poderia atrair recursos para ativos americanos e reduzir o interesse por mercados como o brasileiro. No Brasil, a redução da diferença entre juros locais e americanos também diminui a atratividade do chamado carry trade, estratégia que busca ganhos aplicando em países com taxas mais altas do que as do país onde o dinheiro foi captado.
Para novembro, analistas avaliam que pode ocorrer um repique, ou seja, uma recuperação após a queda acentuada, mas consideram incerto se ela se sustentará. A continuidade de uma melhora dependerá, entre outros fatores, da definição da equipe econômica e de sinais sobre como o governo pretende conduzir as contas públicas e o orçamento de 2027. Sem previsibilidade fiscal, a volatilidade pode continuar e manter a pressão sobre os juros e o câmbio.
Os cenários de instituições financeiras também apontam riscos. O BTG projetou novas quedas para as ações nas semanas seguintes à eleição, com o Ibovespa na faixa dos 170 mil pontos, e estimou desvalorização de 10% a 15% do real no período. O JPMorgan prevê dólar a R$ 5,50 nas próximas semanas; o Morgan Stanley estima que a cotação pode avançar primeiro até esse nível e depois chegar a R$ 5,60 ou R$ 5,70 se o mercado elevar o prêmio de risco fiscal. As projeções são condicionais e dependem da evolução das expectativas econômicas e políticas.
Para entender
- Circuit breaker
- Mecanismo usado por bolsas de valores para interromper temporariamente as negociações quando há uma queda acentuada. A pausa busca conter movimentos bruscos e dar tempo para o mercado assimilar as informações antes da retomada dos negócios.
- Carry trade
- Estratégia financeira que busca aproveitar a diferença entre as taxas de juros de países. Em geral, envolve captar recursos onde os juros são menores e aplicá-los em mercados com taxas mais altas, assumindo também riscos ligados à variação cambial.