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Quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Bolsa brasileira aciona circuit breaker após vitória de Lula

A queda do Ibovespa levou a B3 a interromper as negociações pela primeira vez desde 2020; o dólar também teve sua maior oscilação desde 1999.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Operadores acompanham a movimentação do mercado em um pregão da bolsa. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Operadores acompanham a movimentação do mercado em um pregão da bolsa.
Resumo em 30 segundos

A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro provocou uma forte reação no mercado, com acionamento do circuit breaker na B3 e grande oscilação do dólar. O histórico de eleições anteriores não aponta uma tendência segura para os próximos pregões. Investidores acompanham os sinais do governo sobre política fiscal e equipe econômica.

A Bolsa brasileira acionou o circuit breaker na segunda-feira (26), após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O mecanismo interrompe temporariamente as negociações quando o Ibovespa cai além de limites definidos pela B3; foi a primeira vez que ele entrou em operação desde 2020, durante a pandemia de covid-19. No mesmo pregão, o dólar registrou sua maior oscilação desde 1999.

O circuit breaker é uma proteção criada para conter movimentos bruscos e dar aos investidores tempo para assimilar informações e reavaliar ordens de compra e venda. Pelas regras da B3, uma queda de 10% do Ibovespa em relação ao fechamento anterior suspende os negócios por 30 minutos. Se, após a retomada, o índice chegar a uma baixa de 15%, há nova interrupção, de uma hora. Em queda de 20%, a bolsa pode suspender as negociações por prazo definido pela própria B3. O mecanismo não impede perdas nem garante uma recuperação: apenas pausa o mercado.

A forte reação ocorreu depois de uma virada entre os turnos que surpreendeu investidores. Flávio havia terminado o primeiro turno dois pontos percentuais à frente, contrariando as pesquisas citadas no período e alimentando expectativas de alternância de poder e de ajuste fiscal. Com a aposta na vitória da oposição, investidores haviam comprado ações e vendido dólares, segundo Mário Machado, assessor da InvestSmart. A mudança do resultado eleitoral reverteu essas posições e desfez, em um pregão, parte da valorização acumulada.

Antes da votação final, o Ibovespa havia subido de 192 mil pontos, antes do primeiro turno, para 205 mil no pregão anterior ao segundo; no intervalo, superou os 209 mil pontos. A queda subsequente foi acompanhada por perdas nos pregões seguintes: o índice recuou 0,51% na terça-feira (27) e 2,68% na quarta-feira (28).

O histórico de eleições anteriores não aponta uma direção confiável para os próximos pregões. Dados da Economatica mostram que o Ibovespa caiu no primeiro pregão após os resultados de 2014 e 2018, mas subiu em 2022. Ainda assim, nas três ocasiões, acumulou alta nos cinco pregões seguintes. Na janela de 30 dias, o resultado se inverteu: houve avanço em 2014 e 2018, enquanto 2022 terminou com queda nesse período.

O dólar também teve comportamentos diferentes nos pleitos desde 2014, sem um padrão comum. Já o IFIX, índice que acompanha fundos imobiliários negociados na B3, apresentou maior continuidade: quando subiu após a eleição, manteve a tendência; quando caiu, aprofundou a baixa durante o primeiro mês. A série usada no levantamento começa em 2016 e, por isso, não inclui 2014.

Machado afirma que o primeiro pregão reflete sobretudo como os investidores estavam posicionados antes da votação, e não necessariamente antecipa a trajetória posterior. Em estudo sobre seis eleições presidenciais desde 2002, ele identificou que o efeito adicional da disputa política sobre a volatilidade do dólar tende a perder força a partir de três semanas. Depois disso, fatores como a equipe econômica, os sinais sobre as contas públicas, os juros e o cenário externo passam a pesar mais.

Os exemplos anteriores também mostram por que a reação imediata pode não se prolongar. Em 2022, o Ibovespa chegou a cair 2% no primeiro pregão depois da vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro (PL), mas fechou em alta. O resultado daquele ano foi diferente do atual: Lula já havia ficado à frente no primeiro turno. Em 2014, após a confirmação de que Aécio Neves (PSDB) disputaria o segundo turno com a então presidente Dilma Rousseff (PT), a Bolsa subiu 4,7%. Depois da vitória de Dilma, o índice chegou a cair 6,2% durante o pregão e terminou com baixa de 2,8%.

Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, a reação atual também reflete a avaliação do mercado de que os ajustes esperados não se concretizaram ao longo dos últimos anos. Mário Machado alerta que vender ações durante uma queda pode transformar uma perda temporária em prejuízo realizado. Nas quatro eleições anteriores em que a Bolsa caiu no primeiro pregão, a recuperação começou em até uma semana, embora esse comportamento não assegure que vá se repetir agora.

Os investidores acompanham os próximos sinais do governo, especialmente sobre a política fiscal e a composição da equipe econômica. Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos, diz que parte do mercado espera uma indicação rápida de compromisso com responsabilidade fiscal, controle de gastos e previsibilidade. Até que esses pontos fiquem mais claros, os preços podem continuar se ajustando. Especialistas também recomendam cautela diante da volatilidade, sem presumir que a queda seja automaticamente uma oportunidade de compra ou que a reação negativa vá continuar.

Fontes: Estadão

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