Houthis atingem sede da Aramco e expõem falhas na defesa saudita
O ataque à Saudi Aramco e ao aeroporto de Riad ocorre enquanto os houthis ampliam a produção de drones e mísseis com apoio iraniano e peças chinesas.
Resumo em 30 segundos
Os houthis atacaram o aeroporto de Riad e atingiram a sede da Saudi Aramco na última semana, evidenciando desafios para a defesa aérea saudita. Especialistas atribuem o avanço militar do grupo a décadas de apoio iraniano, produção local de armamentos e componentes comerciais, inclusive enviados da China. A guerra regional também pressionou os estoques de interceptadores.
Os houthis, grupo que controla o noroeste do Iêmen, atacaram na última semana o aeroporto internacional de Riad e atingiram a sede da Saudi Aramco, na Arábia Saudita. Os ataques expuseram dificuldades na defesa saudita contra drones e mísseis, num momento em que o país tenta atrair investimentos estrangeiros e reduzir sua dependência do petróleo.
A Aramco é a maior empresa de petróleo do mundo e um dos principais ativos econômicos sauditas. A ofensiva contra sua sede e o ataque ao aeroporto da capital ampliaram a preocupação com a segurança de instalações e cidades do reino, aliado dos Estados Unidos no Golfo Pérsico.
Especialistas em armamentos e assuntos regionais relacionam a capacidade dos houthis a uma combinação de apoio iraniano e desenvolvimento local. Segundo eles, Teerã forneceu armas, recursos financeiros e treinamento ao grupo por mais de uma década. O Irã nega oficialmente armar os houthis em violação ao embargo de armas imposto pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Com assistência iraniana, os combatentes aprenderam a montar e operar drones e mísseis, inclusive com componentes de uso duplo, que podem ter aplicações civis ou militares. A Guarda Revolucionária do Irã e integrantes do Hezbollah libanês transmitiram conhecimentos sobre sistemas de mísseis, segundo Andreas Krieg, professor sênior de estudos de segurança do King's College London.
“Ex-engenheiros militares iemenitas e uma geração crescente de especialistas treinados localmente ajudaram a institucionalizar essas capacidades”, afirmou Krieg. Para ele, o apoio de Teerã contribuiu para criar uma base de conhecimento e produção no Iêmen que pode permanecer ativa mesmo se as rotas de fornecimento direto forem interrompidas.
Hamid Nikou, ex-assessor político da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, disse que a estratégia iraniana também considerou a possibilidade de os houthis perderem acesso a armas importadas. “Basicamente, o Irã ensinou os houthis a pescar”, afirmou, ao explicar que o grupo foi instruído a fabricar equipamentos com componentes disponíveis no mercado.
O apoio não significa que os houthis dependam apenas de material produzido no Irã. Um relatório divulgado nesta semana pela organização Conflict Armament Research apontou que o grupo tenta fabricar mísseis balísticos de médio alcance com peças enviadas da China. Uma remessa desse tipo foi apreendida pelo governo internacionalmente reconhecido do Iêmen.
Krieg afirmou que a China se tornou uma fonte comercial relevante de componentes, enquanto o Irã segue associado ao fornecimento de tecnologia militar especializada, conhecimento técnico e itens difíceis de comprar no mercado. Os houthis também experimentaram o uso de inteligência artificial para aprimorar armamentos. No mês passado, a Anthropic disse que uma célula de ameaças sediada no norte do Iêmen usou o assistente Claude para apoiar o desenvolvimento de software para um foguete guiado e projetos de mísseis.
A Arábia Saudita enfrenta, ao mesmo tempo, uma pressão maior sobre seus sistemas de defesa aérea. Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, no fim de fevereiro, forças americanas empregaram grandes quantidades de mísseis interceptadores para proteger bases próprias e aliados, entre eles Israel e países do Golfo. Esses interceptadores são armas lançadas para destruir projéteis inimigos antes que atinjam seus alvos.
Farzan Sabet, especialista em Oriente Médio do Geneva Graduate Institute, avaliou que a rede saudita de defesa aérea ainda não tem o grau de integração de sistemas como os de Israel ou da Ucrânia. A grande extensão territorial do reino também torna mais difícil proteger todo o espaço aéreo do que defender um país menor ou uma base militar.
A coalizão militar liderada por Riad na guerra do Iêmen afirma ter interceptado vários mísseis lançados contra cidades sauditas e destruído 127 depósitos de armas e plataformas de lançamento houthis. Seu porta-voz, Turki al-Maliki, declarou que o grupo obteve tecnologia avançada com ajuda de “atores regionais”, incluindo drones, mísseis balísticos e lanchas explosivas.
A guerra civil iemenita começou em 2014, quando os houthis passaram a enfrentar forças apoiadas pela Arábia Saudita, e entrou em um cessar-fogo frágil em 2022. Depois da ofensiva israelense em Gaza, em 2023, o grupo lançou foguetes contra Israel e atacou embarcações no Mar Vermelho. A guerra entre Estados Unidos e Irã neste ano reacendeu o conflito no Iêmen, enquanto os houthis ampliavam sua produção e experiência com armamentos.
Para entender
- Houthis
- Também conhecidos como Ansar Allah, são um movimento político e armado do Iêmen que controla áreas do noroeste do país. O grupo enfrentou forças apoiadas pela Arábia Saudita na guerra civil iemenita e, nos últimos anos, lançou ataques contra Israel e embarcações no Mar Vermelho.
- Saudi Aramco
- Empresa estatal saudita de petróleo e gás, entre as maiores do mundo. Sua produção e infraestrutura energética têm grande peso na economia da Arábia Saudita e no mercado internacional de petróleo.