Governo Lula planeja recriar o Ciência sem Fronteiras com novo foco
A proposta em elaboração no MEC prevê bolsas para competições internacionais, graduação e pós-graduação, mas ainda não define número de vagas nem orçamento.
Resumo em 30 segundos
O governo Lula estuda recriar o Ciência sem Fronteiras, encerrado em 2017, com bolsas para estudantes de competições, universitários e pesquisadores de pós-graduação. A proposta prioriza áreas como inteligência artificial, engenharia, eficiência energética e defesa. Ainda não há definição de vagas ou orçamento, e o plano precisa ser compatibilizado com as despesas do MEC.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva planeja recriar o Ciência sem Fronteiras, programa de bolsas para estudos no exterior encerrado em 2017. A nova proposta, ainda em elaboração no Ministério da Educação (MEC), deve priorizar inteligência artificial, engenharia, matemática aplicada, eficiência energética e pesquisas ligadas à defesa e à soberania nacional. Não há definição divulgada sobre o número de participantes ou o orçamento.
O modelo em estudo prevê três modalidades. Uma delas financiaria viagens de estudantes classificados em competições e olimpíadas nacionais para disputar etapas internacionais. Outra permitiria que universitários cursassem parte da graduação fora do Brasil em áreas consideradas prioritárias, como engenharia, inteligência artificial e matemática aplicada.
A terceira modalidade seria voltada a estudantes e pesquisadores de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Eles poderiam fazer intercâmbio do tipo “sanduíche”, que permite realizar parte do curso ou da pesquisa em uma instituição estrangeira. Nesse grupo, a proposta prevê foco em temas relacionados à defesa e à soberania, entre eles os minerais de terras raras.
O plano também prevê, inicialmente, que a seleção não tenha limite de renda. A proposta precisa ser compatibilizada com o orçamento do MEC, que deverá atender a outras iniciativas de grande custo. O Pé-de-Meia, programa de bolsas para estudantes do ensino médio público, custou cerca de R$ 11,5 bilhões neste ano.
O Ciência sem Fronteiras foi criado durante o governo de Dilma Rousseff e funcionou de 2011 a 2017. O objetivo era ampliar a presença de estudantes e pesquisadores brasileiros em instituições estrangeiras e estimular o desenvolvimento científico e tecnológico. Cerca de 100 mil estudantes de graduação participaram; os Estados Unidos receberam aproximadamente 30 mil bolsistas, seguidos por Reino Unido, Canadá, França e Austrália.
As novas concessões de bolsas foram interrompidas em 2015, mas estudantes que já estavam no programa permaneceram no exterior por até um ano e meio. Por isso, a experiência se estendeu até 2017. O ex-presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) Abílio Baeta Neves, que estava no órgão quando o programa foi encerrado, afirmou que a meta de enviar 100 mil estudantes havia sido atingida.
O governo federal investiu cerca de R$ 13 bilhões no programa entre 2011 e 2017, segundo dados da Capes. A expansão ocorreu durante a deterioração das contas públicas e a crise econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff. Como parte das despesas era feita em moeda estrangeira, a alta do dólar aumentou o custo das bolsas e das mensalidades pagas a universidades no exterior.
A experiência recebeu avaliações distintas. Uma análise de longo prazo publicada em 2023 por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas não encontrou aumento no ingresso de bolsistas em programas de pós-graduação no Brasil nem efeitos significativos sobre emprego formal ou empreendedorismo. Os autores observaram, porém, que o estudo considerou alunos de apenas algumas universidades federais.
Outro levantamento identificou associação entre a participação no programa e resultados melhores no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Também apontou que os bolsistas demoravam mais para concluir a graduação. Em pesquisa do DataSenado com 14,6 mil bolsistas e ex-bolsistas, 92% disseram estar satisfeitos ou muito satisfeitos com o programa.
Entre as críticas ao formato antigo estava a dificuldade de aproveitar no Brasil os créditos cursados em universidades estrangeiras. O professor do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Leandro Tessler defendeu que um eventual retorno inclua convênios entre instituições brasileiras e estrangeiras para compatibilizar os currículos, além de exigências de desempenho para os bolsistas. Ele também avaliou positivamente a possibilidade de financiar viagens de estudantes para competições internacionais, que podem ser difíceis de custear para jovens.