Governadores do Nordeste ficam sem maioria de esquerda em 2026
Lula somou 24,45 milhões de votos nos nove estados, mas o resultado presidencial não se converteu em apoio automático aos candidatos estaduais de esquerda.
Resumo em 30 segundos
Lula ampliou sua votação no Nordeste no segundo turno, mas os partidos de esquerda não conquistaram a maioria dos governos estaduais da região. O PT venceu em quatro estados; PSD, PSDB e PP também elegeram governadores. O resultado ainda projetou lideranças regionais e mostrou a diversidade de prioridades dos eleitores.
A eleição de 2026 confirmou a força de Luiz Inácio Lula da Silva no Nordeste, mas deixou a esquerda sem maioria entre os governadores da região pela primeira vez desde 2006. O resultado também abriu espaço para disputas por influência nacional entre lideranças nordestinas, enquanto os partidos e os eleitores se dividiram em relação às eleições estaduais e às prioridades políticas.
No segundo turno presidencial, Lula recebeu 24,45 milhões de votos nos nove estados nordestinos, contra 10,8 milhões de Flávio Bolsonaro (PL). O presidente obteve cerca de três milhões de votos a mais na região do que no primeiro turno. Depois de uma primeira rodada em que Flávio chegou a ficar dois pontos percentuais à frente, Lula ampliou sua vantagem sobre ele em 1.771 dos 1.794 municípios nordestinos.
A vitória fortaleceu lideranças do PT que participaram da campanha. O governador do Piauí, Rafael Fonteles, e os ex-governadores Camilo Santana, do Ceará, e Rui Costa, da Bahia, estão entre os nomes que buscam ampliar sua projeção no cenário nacional. A articulação ocorre enquanto se discute a composição do novo governo e a sucessão de Lula, que iniciará seu último mandato presidencial.
O PT elegeu governadores na Bahia, no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte, repetindo o resultado que alcançou em 2018 e 2022. O PSB, que havia conquistado dois governos estaduais quatro anos antes, não elegeu nenhum governador na região. As demais vitórias ficaram com PSD, PSDB e PP.
O PSD venceu em Pernambuco, Maranhão e Sergipe; o PSDB, em Alagoas; e o PP, na Paraíba. Dois dos eleitos desses partidos apoiaram Lula na disputa presidencial: Lucas Ribeiro (PP), na Paraíba, e Fábio Mitidieri (PSD), em Sergipe. Raquel Lyra, reeleita em Pernambuco, Eduardo Braide, eleito no Maranhão, e JHC, que governará Alagoas, adotaram neutralidade na eleição para presidente.
A mudança também apareceu nas disputas para o Congresso. Foram eleitos para o Senado nomes identificados com a direita, como Lahesio Bonfim (Novo-MA) e Arthur Lira (PP-AL). Na Câmara, deputados ligados ao centrão perderam espaço para políticos com posições mais ideológicas e incisivas, segundo o balanço das eleições.
A votação presidencial, porém, não significa que a identificação dos nordestinos com Lula ou com governos petistas tenha eliminado outras preocupações. Segurança pública, inflação e preço dos alimentos também pesaram nas escolhas. A campanha expôs eleitores que reconhecem os efeitos de obras e políticas sociais, mas passaram a priorizar questões econômicas ou avaliar de forma diferente os governos anteriores.
O resultado de primeiro turno preocupou aliados de Lula: Flávio reduziu a vantagem do presidente em 98% dos municípios nordestinos em comparação com a votação de Jair Bolsonaro em 2022. A mobilização para a etapa final alterou o quadro. No segundo turno, Lula ampliou sua margem em quase todos os municípios da região, embora as disputas estaduais tenham mostrado que o voto presidencial não se converteu automaticamente em apoio a candidatos de esquerda.
Entre as lideranças que ganharam destaque está Fátima Bezerra (PT), governadora do Rio Grande do Norte e cotada para ser ministra. Ela ajudou a eleger seu ex-secretário Cadu Xavier (PT), conhecido como Cadu de Lula, que conquistou votos também entre eleitores bolsonaristas. Em Pernambuco, a derrota de João Campos afastou a principal aposta do PSB de um projeto de alcance nacional; Marília Arraes (PDT), por sua vez, foi eleita senadora em dobradinha com Humberto Costa (PT).
As articulações para o governo federal podem definir os próximos passos de alguns dos quadros petistas. Camilo Santana pode sair na frente se for confirmado para a Casa Civil. Fonteles é cotado para o Ministério da Fazenda, mas uma nomeação exigiria que renunciasse ao mandato de governador; Rui Costa deve permanecer no Senado, onde Lula precisará lidar com uma maioria de direita.
A força eleitoral de Lula no Nordeste, portanto, convive com uma representação estadual mais fragmentada. Para os partidos de esquerda, o desafio do próximo ciclo será manter apoio por meio de obras e políticas públicas e renovar suas lideranças, enquanto os nomes regionais tentam transformar o peso dos votos nordestinos em influência nacional.