Fundos multimercados macro perdem até 18% após eleição
Vista Macro, Mar Absoluto e ASA Hedge tiveram as maiores perdas; a virada do mercado derrubou apostas em bolsa, valorização do real e juros menores.
Resumo em 30 segundos
Fundos multimercados macro registraram perdas expressivas após a eleição, com quedas de 18% na Vista Macro, 15,5% na Mar Absoluto e 11,2% na ASA Hedge. A reversão de apostas em ativos brasileiros pesou sobre as carteiras. Algumas estratégias, porém, limitaram os prejuízos ou tiveram ganhos, como fundos da Adam.
Fundos multimercados macro registraram perdas expressivas no pregão seguinte à eleição presidencial, em um movimento atribuído à reversão de apostas favoráveis a ativos brasileiros. Entre as carteiras acompanhadas em levantamento com dados da Morningstar, Vista Macro caiu 18%, Mar Absoluto recuou 15,5% e ASA Hedge perdeu 11,2%. O resultado ocorreu após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, depois de Flávio Bolsonaro (PL) sair à frente na apuração do primeiro turno.
Os fundos macro podem mudar a composição da carteira conforme a avaliação dos gestores sobre a economia e os mercados. Nesse caso, as perdas foram associadas ao chamado “kit Brasil”: posições compradas em bolsa, apostas na valorização do real e aplicações que se beneficiariam de juros em queda. Com a reação do mercado ao resultado eleitoral, essas estratégias perderam valor.
O economista Marcelo d’Agosto, que analisou os dados, avaliou que parte dos gestores ampliou posições entre os turnos e precisou reduzi-las depois. A saída simultânea de investimentos pode aumentar a pressão sobre os preços dos ativos. O levantamento reuniu cerca de 60 carteiras macro acompanhadas em comparações do setor.
Entre 5 e 26 de outubro, o Ibovespa caiu 8% e o dólar subiu 5,3%. Alguns fundos recuaram mais de 9% no intervalo, enquanto outros conseguiram limitar o impacto e renderam acima do CDI, taxa de referência para aplicações de renda fixa. Para Sylvio Castro, chefe de soluções de investimentos globais e fundos de fundos do Itaú Unibanco, os riscos mais relevantes estavam em moedas e juros. As posições em títulos indexados à inflação tiveram algum amortecimento, mas as taxas prefixadas surpreenderam negativamente.
O desempenho também variou conforme a proteção adotada por cada gestor. Fundos que tinham opções para reduzir o impacto de oscilações bruscas se defenderam melhor, segundo Castro. Entre as carteiras que ele acompanha, as perdas ficaram entre 2% e 5%. A variação do dólar foi superior ao que gestores e analistas consideravam um cenário de estresse.
A Mar Absoluto negou a investidores que o fundo será encerrado. Em comunicado, Bruno Coutinho afirmou que a gestora errou nas apostas para o ano e que espera uma redução do patrimônio sob gestão. A empresa está ajustando custos e estrutura, incluindo uma redução parcial da equipe, mas pretende preservar o núcleo da estratégia macro. Coutinho disse que seguirá à frente da gestão e que não há plano de fechamento do fundo.
A gestora também prevê uma carteira menos carregada, com apostas oportunísticas diante da expectativa de juros altos e oportunidades pontuais. No ranking de setembro da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a casa administrava pouco mais de R$ 720 milhões. A equipe informou que as conversas sobre os ajustes internos deram origem a rumores de encerramento, que foram negados.
Antes do segundo turno, a Vista Capital informou a cotistas que mantinha exposição a Brasil, urânio e Argentina, além de posições vendidas em ações da Petrobras. Uma posição vendida busca ganhar com a queda de um ativo. A gestora avaliava que o preço das ações da estatal estava elevado. Após o resultado eleitoral, a equipe afirmou esperar que a baixa exposição a ativos de risco começasse a ser revertida.
Nem todos os fundos macro tiveram perdas. As carteiras Macro II e Advanced II, da Adam, avançaram 7,9% e 14,4%, respectivamente, e acumulavam ganhos próximos de 25% no ano. Segundo o gestor Fábio Landi, a casa priorizava investimentos no exterior, sobretudo em ações de tecnologia, e mantinha pouca exposição ao Brasil. Ele afirmou que a estratégia não foi montada especificamente para a eleição.
O choque se soma a um período de dificuldade para a indústria. Dados da Anbima indicavam captação líquida positiva de R$ 16,1 bilhões nos 12 meses até 22 de outubro, mas o saldo acumulado no ano ainda era negativo em quase R$ 4 bilhões. Entre 2022 e 2025, os fundos hedge brasileiros tiveram resgates de R$ 660,3 bilhões.
Gestores e profissionais do setor avaliam que as perdas podem acelerar mudanças nas carteiras e na estrutura de algumas casas. Entre os ajustes citados estão reduzir a exposição a empresas domésticas mais sensíveis às oscilações da bolsa e ampliar controles de risco, tecnologia e processos. A queda também interrompe uma tentativa recente de recuperação do segmento, que vinha recebendo recursos nos últimos meses.