Fundo E do Chile perde 10,4% e preocupa aposentados
A queda entre janeiro e setembro está ligada a contratos financeiros afetados pela alta dos juros nos EUA; regulador e comissão parlamentar investigam as AFP.
Resumo em 30 segundos
O fundo E, considerado o mais conservador do sistema previdenciário chileno, caiu 10,4% entre janeiro e setembro. As perdas foram associadas a contratos financeiros que dependiam da queda dos juros nos Estados Unidos. O órgão regulador e uma comissão parlamentar investigam se as administradoras de fundos de pensão agiram com cautela.
O fundo E, considerado o mais conservador do sistema previdenciário chileno, perdeu em média 10,4% entre janeiro e setembro, reduzindo o saldo de centenas de milhares de contas. A queda atingiu aposentados e pessoas próximas de deixar o mercado de trabalho e levou o órgão regulador e uma comissão parlamentar a investigar se as administradoras de fundos de pensão (AFP) cumpriram seu dever de cautela nos investimentos.
Entre os afetados está Magaly Valencia, ex-professora de matemática de 70 anos, que vive em Santiago. Ela afirma que perdeu quase US$ 10 mil desde o início do ano. O consultor previdenciário Daniel Bautista calcula que, se o benefício fosse recalculado agora, a aposentadoria mensal dela poderia cair cerca de US$ 50.
Valencia aplicou no fundo E, escolhido por 761 mil chilenos. Desse grupo, cerca de 69 mil têm mais de 60 anos e já se aposentaram ou estão perto de fazê-lo. O fundo D, também de perfil conservador, teve a segunda maior queda: 6,4% no mesmo período.
As perdas estão ligadas a contratos financeiros que as AFP compraram com a expectativa de que as taxas de juros dos Estados Unidos caíssem. Como as taxas subiram, os investimentos tiveram resultado negativo. Até setembro, os contratos acumulavam perdas de US$ 10 bilhões, segundo a Superintendência de Pensões.
No Chile, os trabalhadores destinam 10% do salário a uma conta individual administrada por uma AFP. A entidade investe os recursos nos mercados financeiros, e o saldo acumulado influencia o valor recebido na aposentadoria. No caso de Valencia, o benefício é recalculado anualmente de acordo com o dinheiro disponível na conta.
O sistema de contas individuais privadas foi implantado em 1981, durante a ditadura de Augusto Pinochet, e substituiu o modelo público de repartição, no qual trabalhadores ativos financiavam os benefícios de quem já havia se aposentado. As AFP têm hoje mais de 12,2 milhões de afiliados.
Depois de 40 anos de trabalho, Valencia passou de um salário mensal de cerca de US$ 2 mil para uma aposentadoria de US$ 750. O valor reúne o pagamento da AFP e a Pensão Garantida Universal, criada pelo governo em 2022 para complementar a renda da maioria dos aposentados. Segundo a Superintendência de Pensões, apenas 7,5% dos aposentados recebem mais do que o salário mínimo, de US$ 550.
A aposentada também enfrenta despesas médicas. Depois de receber o diagnóstico de câncer de mama, pouco após se aposentar, pagou cerca de US$ 7 mil por uma cirurgia de emergência. Ela prevê gastar outros US$ 10 mil em uma operação para tratar artrose. “É uma decepção total porque mentiram para nós. Sempre nos disseram que era o fundo mais seguro”, disse.
Mario Rebolledo, ex-bancário de 64 anos, também contesta perdas nos fundos E e D. Ele afirma ter perdido cerca de US$ 5.550 entre abril e outubro e entrou com uma ação judicial contra a AFP. Aposentado há dois anos, recebe aproximadamente US$ 505 por mês e gasta US$ 400 com aluguel; nos fins de semana, vende roupas vintage para complementar a renda.
O economista Guillermo Larraín, ex-superintendente de Pensões, afirmou que os investimentos podem se recuperar caso as AFP mantenham os contratos e as taxas de juros dos Estados Unidos caiam. A investigação do regulador e da comissão parlamentar deve examinar a atuação das administradoras e o risco assumido nos investimentos.