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Sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro propõe fim da reeleição e mandato de até seis anos

A PEC ainda não tem texto definido; especialistas questionam se ampliar o mandato após a eleição respeitaria o voto periódico protegido pela Constituição.

Por Redação Plantão Paulista 3 min de leitura
Imagem gerada por IA: Congresso Nacional em Brasília ao entardecer, com uma urna e uma Constituição em primeiro plano. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Congresso Nacional em Brasília ao entardecer, com uma urna e uma Constituição em primeiro plano.
Resumo em 30 segundos

Flávio Bolsonaro propõe acabar com a reeleição e considera mandatos presidenciais de cinco ou seis anos. A campanha diz que os detalhes serão definidos na PEC e debatidos no Congresso. Especialistas apontam possível conflito com cláusulas pétreas, que protegem o voto periódico, e avaliam que o STF poderia analisar a validade da mudança.

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) propõe acabar com a reeleição e discute ampliar os mandatos presidenciais para cinco ou seis anos, em uma proposta de emenda à Constituição (PEC). A mudança poderia beneficiar o próprio senador caso vença a eleição marcada para o próximo dia 25 e, segundo especialistas em direito constitucional, pode contrariar regras protegidas pela Constituição.

A proposta ainda não tem parâmetros definidos. Em comunicado, a campanha de Flávio afirmou que a PEC estabelecerá a duração dos mandatos e se a regra também valerá para outros cargos do Executivo. Disse ainda que o texto será debatido com a sociedade e analisado pelo Congresso, seguindo o processo legislativo.

A discussão envolve uma questão além do fim da reeleição: se um mandato poderia ser prolongado depois de o eleitor votar para um período determinado. No Brasil, a Constituição protege o voto direto, secreto, universal e periódico. Esse princípio está entre as chamadas cláusulas pétreas, dispositivos que não podem ser abolidos nem mesmo por uma emenda constitucional.

O professor de direito constitucional Oscar Vilhena Vieira, da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo, avalia que a proposta pode ferir essa proteção. Para ele, as cláusulas pétreas impedem que uma maioria política restrinja direitos fundamentais e altere as bases da democracia em benefício próprio.

O constitucionalista Lenio Luiz Streck também considera que estender o mandato de um presidente eleito para um período menor violaria a soberania popular. “Não existe mandato sem voto”, afirmou. Ele comparou as limitações constitucionais a um compromisso que impede governantes de mudar as regras depois de eleitos.

A Constituição permite que o Supremo Tribunal Federal (STF) examine a validade de emendas constitucionais. Uma eventual contestação poderia levar a Corte a decidir se a mudança ultrapassaria os limites impostos pelas cláusulas pétreas. O cientista político Sérgio Abranches avalia que o tribunal teria condições de barrar a alteração, caso a considerasse inconstitucional.

A PEC também não prevê restrições a candidaturas de parentes do presidente. A professora de direito constitucional Flávia Bahia, da FGV do Rio, apontou que a vedação apenas à reeleição do titular poderia permitir que integrantes de uma mesma família se alternassem no poder. Ela afirmou que essa possibilidade suscita preocupação com a concentração dinástica da política.

A regra poderia alcançar ainda governadores e prefeitos, caso a proposta inclua esses cargos durante a negociação no Congresso. A campanha não detalhou como a PEC trataria esses mandatos. A definição do alcance da mudança dependerá do texto apresentado e do que for aprovado pelos parlamentares.

A discussão tem precedentes históricos, mas com diferenças relevantes. Durante a ditadura militar, Ernesto Geisel obteve do Congresso a ampliação de cinco para seis anos do mandato presidencial de seu sucessor, João Baptista Figueiredo. A medida se aplicou ao período de Figueiredo, que governou de 1979 a 1985.

Na transição para a democracia, a Assembleia Nacional Constituinte reduziu de seis para cinco anos o mandato para o qual Tancredo Neves e José Sarney haviam sido eleitos indiretamente em 1985. Mais tarde, os mandatos presidenciais passaram a ter quatro anos, em um modelo influenciado pelo sistema dos Estados Unidos, adotado no Brasil desde 1891.

Os defensores da proposta de Flávio comparam a iniciativa à emenda da reeleição aprovada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. A diferença, observam os especialistas citados, é que a reeleição permitiu ao presidente disputar novamente o voto popular; a extensão de um mandato poderia alterar o prazo definido antes da eleição, sem nova consulta aos eleitores.

A emenda da reeleição foi aprovada em 1997, e Fernando Henrique foi reeleito no ano seguinte. Oscar Vilhena afirmou que o debate atual ocorre em um cenário de preocupação com o compromisso de grupos políticos com a democracia e com a possibilidade de concentração de poder. Abranches também considera que a eventual disputa judicial acrescentaria tensão à relação entre os Poderes.

Para Streck, a existência de limites constitucionais impede que uma maioria parlamentar altere princípios fundamentais por meio de uma emenda. A decisão sobre a validade de uma eventual proposta, porém, dependeria do texto final, da tramitação no Congresso e, se houver questionamento, da análise do Supremo.

Para entender

Cláusulas pétreas
São dispositivos da Constituição que não podem ser abolidos por emenda constitucional. Entre eles estão a proteção à forma federativa de Estado, à separação dos Poderes, aos direitos e garantias individuais e ao voto direto, secreto, universal e periódico.
Proposta de emenda à Constituição
A PEC é o instrumento usado para alterar a Constituição. Sua tramitação exige aprovação em dois turnos na Câmara dos Deputados e no Senado, com o apoio de três quintos dos integrantes de cada Casa. Depois de aprovada, é promulgada pelo Congresso.

Fontes: Valor Econômico, Zero Hora, Folha de S.Paulo

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